20XX

20XX

por Felipe Demartini

Para matar as saudades (e com algo a mais)

A vida do desenvolvedor independente é difícil. Encontrar espaço nos grandes veículos, chamar a atenção para si diante de blockbusters gigantescos e, principalmente, atrair o suado dinheirinho dos jogadores não são tarefas nada fáceis, mas que, para muitos, podem ser facilitadas em referências e citações. Fica fácil explicar um game e porque você deve se interessar por ele quando ele é “no estilo de alguma coisa”.

Essa é uma maneira simples de ganhar destaque no segmento mas que, ao mesmo tempo, depõe contra a própria obra. Afinal de contas, porque eu jogaria um game “tipo alguma coisa” quando essa “alguma coisa” está plenamente disponível? A resposta é o que diferencia os adultos dos mirins e representam a linha tênue entre inspiração e clonagem. 20XX está do lado certo dessa divisão.

O título da Batterystapple Games não faz questão de esconder suas influências, que estão presentes desde o título até o design de personagens, fases, oponentes e armas. Por outro lado, a experiência de jogar 20XX soa como algo autêntico, ainda que inspirado, com elementos inéditos e uma variedade não vista nem mesmo nos games do clássico robozinho azul.

Com uma trilha de alta qualidade, desafio na medida e muitas opções, 20XX é um game autêntico e divertido, com bastante a oferecer, mesmo que focado em um nicho específico.

Aqui, vamos os personagens Nina e Ace desferindo disparos ou espadadas certeiras no coração dos fãs da franquia Mega Man X. Se Mighty No.9 foi mal-sucedido em matar as saudades dos títulos clássicos do protagonista (pelo menos, ele serviu para que um novo game fosse anunciado), o mesmo não pode ser dito de 20XX, que acerta ao trazer uma pegada toda própria a um ensejo que já é amplamente conhecido e apreciado.

A franquia do personagem robótico nunca foi das mais fáceis, e na série X, se tornou ainda mais desafiadora. Agora, imagine encarar tudo isso com uma única vida e em cenários gerados de forma procedural, com cada partida sendo diferente da anterior. Decisões, tensão e, principalmente, precisão, serão necessidades frequentes aqui.

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Como nos games de Mega Man, cada poder obtido anteriormente facilita a vida nos chefes anteriores, mas em 20XX, sua utilização não se resume a apenas isso. Também é possível adquirir upgrades para o personagem ou encontrar tais itens pelo cenário. Eles vão desde um aumento na vida máxima ou na força dos ataques até melhorias de armadura, que permitem saltos duplos ou planar por algum tempo.

Aqui, entretanto, há um elemento de estratégia envolvido, pois o game também levará isso em conta na hora de gerar os estágios. Ter uma armadura poderosa, então, alterará o andamento dos cenários com a inserção de inimigos mais poderosos, saltos mais precisos ou que exigem maior distância. E você só saberá disso depois, quando o desafio estiver na sua frente.

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É, então, um processo de tentativa e erro, que vai fazer a alegria dos speedrunners e, também, de quem curte um desafio. Aplicar um upgrade ou não será sempre um jogo de equilíbrio e, também, sorte para que o sistema procedural de 20XX não organize os elementos de forma a criar fases complexas.

Esse balanceamento, inclusive, é feito de forma tão apurada que impressiona. Não importa quantas melhorias sejam aplicadas, os cenários jamais se tornam punitivos. Por mais difícil que um desafio possa parecer, você sempre saberá que há uma forma de passar, e que, se morreu, foi por falta de habilidade ou vacilo.

Esse cuidado faz, inclusive, com que as perdas não soem negativas, mas sim como um motivador para seguir adiante. Vale a pena, por exemplo, mudar de personagem para tentar abordar os desafios de outra maneira ou apostar nos desafios diários, semanais ou mensais, que garantem pontos para a compra de upgrades iniciais, os únicos que permanecem ativos mesmo após a destruição dos robôs.

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Outra entrega feita pela desenvolvedora tem a ver com o poder dos chefes, muitas vezes, mais fáceis de serem derrotados do que os próprios estágios que os antecederam. Mais uma vez, estamos falando de equilíbrio e balanceamento – chegar ao final de uma fase é um prêmio e uma comemoração pelo trabalho bem realizado, não um desafio final do qual só os fortes sairão vivos. Isso pode frustrar, pelo mal aproveitamento no design dos inimigos, mas soará como uma compensação interessante pelo esforço envolvido anteriormente.

Como em todo desenvolvimento de jogo indie, infelizmente, algo tem que ceder. E, neste caso, o cuidado no desenvolvimento de cenários e do sistema procedural resultou em um conjunto visual aquém do esperado. Os gráficos durante a jogatina, em si, são interessantes, apesar de meio repetitivos, enquanto cutscenes e artes conceituais apresentam uma cara de “rascunho” que chega a incomodar.

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Além disso, muitas vezes, cenas meio em sentido aparecem entre as fases ou após uma morte, sem que o jogador entenda bem sua razão de existir nem porque está assistindo aquilo, principalmente quando isso se junta à localização mal-feita para o português brasileiro. Unindo esses fatores, 20XX acaba sendo daqueles títulos que você vai se importar bem mais com o gameplay do que o enredo – mais uma relíquia de um passado em que essa era a tônica, principalmente, devido às limitações técnicas.

E isso, para este título, é mais do que suficiente. Estamos falando daqueles jogos que podem ser terminados em cerca de duas horas, mas você dificilmente vai fazer isso por conta do processo de tentativa, erro e conhecimento que citei. Cada passo e escolha influencia nas fases seguintes e, mesmo conhecendo todo o caminho, você pode acabar sendo surpreendido.

Com uma trilha sonora de alta qualidade, desafio na medida e muitas opções, 20XX se posiciona como um game autêntico e divertido, com bastante a oferecer, mesmo que focado em um nicho específico. E ao contrário da superestimada obra de Keiji Inafune, estamos falando aqui de um game digno para matar as saudades de Mega Man X. E se a Capcom enxergar isso como um sinal para criar um novo título dessa saga, melhor ainda.

O jogo foi analisado no PlayStation 4, em cópia cedida pela Fire Hose Games.

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