Os dois últimos anos têm sido bons para a Ubisoft. Com o ano fiscal 2015-16 encerrado em março último, as vendas da publicadora francesa somaram US$ 1,58 bilhão, um crescimento de 12% no comparativo com 2014, enquanto a expectativa para o fechamento de 2016-17 gira em torno de US$ 1,83 bilhão. Ambos os períodos são impulsionados por jogos top 10 em vendas, como Assassin’s Creed Syndicate, The Division, Far Cry Primal e logo provavelmente Watch Dogs 2.

A trajetória de expansão dos irmãos Guillemot, fundadores da empresa, sofreu uma muito bem-vinda guinada há exatos 20 anos, quando foi anunciada a abertura de capital da Ubisoft. Sua repercussão na indústria de video games certamente não seria a mesma sem essa importante tomada de decisão, mas como quase tudo nessa vida, as desvantagens do plano não tardaram (tanto) a aparecer, e a empresa enfrenta, hoje, a dura contrapartida de ser intitulada “pública”.

UbisoftYves Guillemot, presidente da Ubisoft.

Há mais de um ano (ao que tudo indica), a Vivendi tem realizado a compra de ações da Ubisoft numa manobra de takeover hostil. O termo indica quando determinada proponente busca o controle de uma empresa alvo via compra de 51% ou mais de suas ações, vindo a se tornar o acionista, ou shareholder, majoritário daquela.

Os que estão nessa posição podem (e devem) ter representantes no conselho administrativo da empresa “adquirida” e participar do planejamento estratégico e posicionamento de mercado ano a ano. Basicamente, participam de deliberações cruciais que interferem diretamente no desempenho e futuro do negócio.

A Vivendi é uma multinacional francesa do ramo de mídia. Com sede em Paris, ela contempla os mercados da música, televisão, cinema, telecomunicações e, claro, video games. É dona, por exemplo, da produtora Canal+, e da gravadora Universal Music, e por muito tempo foi proprietária de 58% da GVT, parcela vendida em 2014 para a Telefónica.

Vivendi

Foi num esquema parecido que o mesmo grupo tomou controle da Blizzard nos anos 1990, e facilitou a sua fusão com a Activision em 2008. Desde então, entretanto, a Vivendi não exerce mais a mesma autoridade sobre a Activision Blizzard, tendo devolvido parte de suas ações à Activision por um valor estimado em US$ 5,8 bilhões. Sua postura em relação a esse empreendimento pode, inclusive, sofrer influências diretas dos desdobramentos do takeover sobre a Ubisoft.

Krugman não estava de todo certo

O conselho administrativo da Ubisoft está feliz com o cortejo da Vivendi? Não. Takeovers hostis são, como sugere o nome, algo ruim? Depende.

Abertura de capital é uma ótima alternativa a empresas que buscam expansão de mercado e multiplicação de receita, porém os fatores negativos de uma oferta pública inicial (sob ótica dos líderes), também cobram à altura. Se você comanda uma equipe que prioriza liberdade de criação, principalmente no meio artístico, a última coisa que quer é alguém intervindo no seu trabalho, e é exatamente o que acontece quando uma segunda empresa toma controle acionário da sua.

Foi com esse pensamento que Yves Guillemot, CEO da desenvolvedora, declarou na última E3 que nas três décadas de existência da Ubisoft seus funcionários sempre foram livres para criar, inovar e correr riscos, e que esse continuará sendo o mote da empresa. Inegável a provocação à Vivendi, em transmissão global.

Para empresas que se tornam públicas, o quadro de diretores é alterado, equipes podem se dissolver, fazendo com o que o investimento em capital humano, essencial nessa indústria, seja perdido, metas de venda geralmente se tornam mais ambiciosas e a atuação frente à concorrência, mais agressiva. O economista Paul Krugman uma vez disse que a estrutura monopolística era a raiz dos baixos investimentos em qualquer setor, o que resulta em estagnação da qualidade oferecida em produtos e serviços.

Recentemente, numa brilhante pesquisa comandada nos institutos Stern School of Business e Harvard Business School, e em crítica à proposição de Krugman, um grupo de economistas concluiu que a presente defasagem de investimento é um fenômeno mais atrelado a empresas públicas que privadas, tendo como causa primária a lógica de raciocínio da figura do acionista. Essa mentalidade é que atinge, de fato, o cerne da questão. Governança corporativa é um problema macroeconômico, e que engloba monopólios.

E o que isso tudo tem a ver com a Ubisoft?

A observação é dura, mas pertinente. O pensamento do shareholder é o de maximização do valor de suas ações no período em que seus representantes tiverem cadeira no quadro de direção da empresa (quatro ou cinco anos, em média), ou seja, foco em retorno curto-prazista. Esse comportamento dá abertura, muitas vezes, a alavancagens inconsequentes, fusões e aquisições desnecessárias, incessantes buybacks, etc.

UbisoftEscritório de desenvolvimento da Ubisoft em Paris, na França.

O takeover hostil é positivo para acionistas da Ubisoft, considerando-se que o termo “hostil” traz em si a disposição da proponente em adicionar um valor premium ao que o mercado paga pelos papéis, para que proprietários não vejam alternativa senão aceitá-lo, algo ao estilo Dom Corleone, de “uma oferta que eles não poderão recusar”.

Por outro lado, muito é posto em jogo, e processos criativos podem ser seriamente comprometidos simplesmente porque alguém de uma indústria diferente da sua assumiu uma cadeira importante no quadro de diretores da sua empresa. Esse alguém pensa diferente de você, e pode querer que você acelere a produção, ou mesmo abandone determinados projetos. E é assim que o pandeiro toca. A Ubisoft sempre esteve ciente desse risco, mesmo antes de se tornar pública.

A Vivendi jamais compraria a maior parte de ações da Ubisoft – sendo que sequer haveria ações – se esta fosse de capital fechado, como o que aconteceu entre EA e Valve. Em 2012, a desenvolvedora e distribuidora americana ofereceu US$ 1,0 bilhão pela aquisição da Valve, que tranquilamente refutou a oferta, sendo de propriedade privada. E vida que segue.

O mecanismo de defesa

Watch Dogs 2Reprodução do prédio da Ubisoft em Watch Dogs 2.

Temos a impressão de que a conjuntura da Ubisoft é de desvantagem, mas há mecanismos de defesa proativos e reativos que podem ser acionados em situações como essa. Como a Vivendi já está em processo de compra, resta à Ubisoft agir reativamente, o que tem feito sob estratégia chamada de “white knight”, que é quando a empresa alvo, antes de ser adquirida via ações, recorre a empresas semelhantes, do mesmo setor, com ofertas atrativas de controle majoritário de sua parte.

“Se for para vender, que eu venda para um dos meus”, e é o que os irmãos Guillemot têm feito e chamado de “plan B”, direcionando esforços principalmente para estúdios no Canadá vinculados à Ubisoft, onde fizeram grandes investimentos de multimídia nos últimos anos. Não seria bem uma preservação de independência, mas é um cenário melhor que o de coerção para que se trabalhe com empresas que são parceiras e/ou exclusivas da Vivendi.

A inevitável dança da morte

Vivendi
Vincent Boloré, diretor da Vivendi. (Foto: Jeux Video)

A concretização do takeover hostil da Vivendi acontecerá, e em uma questão de tempo. A participação acionária da família Guillemot gira em torno dos 19%, enquanto a do conglomerado já está em aproximadamente 25%.

Recentemente a Vivendi concluiu o takeover de ações dos Guillemot na Gameloft, uma das maiores desenvolvedoras de jogos mobile do mundo. A produtora viu 62% de seu capital passando para as mãos do conglomerado, um passo largo de aproximação para a Ubisoft.

Em setembro último, em reunião geral anual, a publicadora francesa conseguiu evitar, por ora, que a Vivendi nomeasse um de seus membros à mesa de diretores da Ubisoft, porém a evolução na compra de ações continua. O que vemos agora é apenas a Vivendi chegando às vias de fato, enquanto o terreno tem sido preparado há anos.

Poucos lançamentos grandes derrubam vendas da Ubisoft em 18%

A apreensão do time produtivo que é alvo dessa transação se estende à parte final da cadeia, ou nós, consumidores. Jogos podem ser instrumento de massificação, mas é muito grave que se limitem a isso. Por trás de estúdios milionários há, sim, profissionais cuja força motriz é a paixão pelo que fazem, e que são, de certa forma, livres para fazê-lo. A introdução de controle acionário que está mais preocupado com métricas de crescimento de mercado do que com conteúdo produzido é prejudicial à parte criativa, que tem objetivos que vão além do “fazer dinheiro”.

Não é como se as coisas estivessem às mil maravilhas e nós satisfeitos com a indústria de jogos, longe disso. Mas se vocês acham que um Assassin’s Creed por ano é algo terrível, pensem que a situação ainda tem muita margem para piorar.

ATUALIZAÇÃO 08/12 14H37: No mesmo dia da publicação deste texto, a Vivendi divulgou comunicado à imprensa anunciando que adquiriu novas ações da Ubisoft, tendo agora propriedade de 25,12% da desenvolvedora. Ela afirmou, entretanto, que por ora não está interessada na tomada total de controle, embora objetive um melhor posicionamento junto ao quadro de diretores da empresa, considerando-se a participação acionária e direitos de voto.

Segundo o Gamasutra, a Vivendi será obrigada a assumir oficialmente uma estratégia de takeover da Ubisoft caso sua parcela acionária exceda o marco de 30%, como previsto pela Comissão Europeia.

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