Ace Combat 7: Skies Unknown

por Caio Vicentini

O retorno dos ases indomáveis

Voltar a jogar um Ace Combat foi como visitar um velho amigo que não encontrava a alguns anos, mas, depois de algum tempo conversando, é como se nada tivesse mudado, mesmo com algumas histórias novas para contar. É um resgate ao combate intenso e fluído, com inimigos mais capazes de te sobrepujar, com a mesma dramaticidade e proporções épicas que apenas essa franquia pode injetar em um jogo de caças.

Depois de Assault Horizon e Infinity, a equipe da Project Aces fez um resgate de muitos elementos que haviam sido perdidos com o passar dos lançamentos. Sem uma nova adição à franquia numerada desde Ace Combat 6, que se mantém até hoje um exclusivo da Microsoft, a espera por um verdadeiro novo jogo ao estilo que consagrou a franquia foi longa demais, mas valeu toda a pena.

Foram-se embora as dogfights, uma ideia inédita na franquia, mas que tornava o combate muito engessado e repetitivo, dando espaço para a volta do combate tradicional com rasantes e manobras arriscadas, recompensando os pilotos mais atrevidos. A inteligência artificial melhorada adiciona uma nova camada às já complexas lutas nos ares, pois não basta apenas seguir com precisão seu adversário, mas induzi-lo ao erro para conseguir o tiro certeiro. A jogabilidade é acessível para marinheiros de primeira viagem, facilitando viradas e curvas, mas com o modo expert que é possível acessar toda uma gama de manobras que tornam o jogo mais complexo e recompensador por executá-las.

É levemente mais difícil acertar alguns alvos, tais como os drones, seja pelas manobras evasivas mais arrojadas, como também algumas novas adições como tempestades, que podem afetar a precisão de disparos de longo alcance. Influências climáticas que não se resumem a apenas isso, no sétimo jogo da franquia o clima é um elemento a parte para favorecer ou dificultar sua vida nas missões.

Ace Combat 7: Skies Unknown traz a série de volta em grande estilo e prova que a Bandai Namco ainda sabe o que a fez ser tão única.

Fique muito tempo nas nuvens e seu jato pode começar a congelar com as baixas temperaturas, tornando o controle mais complicado. Várias correntes de ar podem vir na pior das situações, desafiando a capacidade de se adaptar, seja pelo estilo de voo ou até mesmo customizando o caça, uma alteração muito mais perceptível nas missões.

As fases de um modo geral funcionam bem e a quantidade de missões é o suficiente para não apenas para dar espaço o suficiente para contar a história, como treinar todos os tipos de vôo. Desde os combates aéreos até os bombardeios sobre bases inimigas. Estas últimas que, por sua vez, são um pouco mais letais pela sua larga quantidade de defesas antiaéreas, podendo serem capaz de acertar alguns mísseis em você se não prestar atenção.

Ainda assim, esse resgate à velha forma poderia ter deixado de lado algumas escolhas mais arcaicas de game design, como missões com limite de tempo a serem cumpridas. Não que todas as fases do tipo sejam ruins por si só, mas do jeito que Ace Combat faz, as torna uma dificuldade artificial e irritante.

Com uma inteligência artificial mais refinada e astuta, os inimigos controlados pela IA (especialmente os drones na dificuldade mais alta) são um desafio mais divertido do que faltar apenas alguns alvos no mapa e ter de recomeçar tudo novamente pois o tempo da missão acabou. Faltou um pouco de contextualização para dar uma sensação real de urgência pelo que acontecia, mas nas várias missões em que o desafio era conseguir uma pontuação destruindo bases, o espaço de tempo parecia apenas uma forma mais simplória de dificultar as coisas.

Uma guerra não tão preto e branco

A história do jogo também se passa novamente no universo chamado “Strangereal”, em que vários continentes e países fictícios são o palco para as constantes guerras literais e ideológicas que a franquia aborda em suas cutscenes, com pouca ou quase nenhuma ligação direta a eventos de jogos passados (com exceções talvez para Ace Combat 5 e 0).

Assumindo mais uma vez o papel de um personagem mudo, dessa vez o piloto de codinome Trigger, a história é contada majoritariamente pelos olhos de Avril Mead, a mecânica que acompanha de perto a jornada do combatente que cai em desgraça depois que um resgate falha logo no início do jogo.

Além de Avril, vários outros participantes colorem a trama com suas personalidades bem definidas, às vezes pendendo um pouco demais nos estereótipos, como o personagem arrogante que assume o papel de rival do protagonista, o oficial de patente superior que faz de tudo para tornar sua vida um inferno durante as missões, entre tantos outros. Isso não é de todo ruim, mas me vi tendo dificuldade de me importar com meus colegas de esquadrão depois de alguns diálogos forçados ou eles morrerem rápido demais, sem tempo para serem melhor conhecidos em cutscenes. Ainda que a franquia não seja conhecida pela sua sutileza na hora de contar histórias, ela já foi capaz de inserir mais nuances a seus personagens.

A história por si só é imprevisível, com muitos altos e baixos e colegas de esquadrão indo e vindo. As maquinações políticas que ocorrem e a sensação de seu personagem ser apenas um soldado fazendo parte de um evento maior ajudam muito na criação de proporções épicas. Por mais absurda que seja a proposta de cada jogo (um jato com raio laser, ou um elevador espacial que energiza um país), o enredo sempre é apresentado de forma que você embarque na história.

Não apenas isso, mas as cutscenes dão espaço para desenvolver a história dos seus inimigos de conflito, pessoas envolvidas na guerra do outro lado do mapa, dando humanidade a eles e se afastando da dualidade de certo ou errado que alguns jogos de guerra impõem.

Perseguido por todos os cantos, agora online!

Skies Unknown não é o primeiro jogo da série a ter um modo multiplayer, mas talvez seja o primeiro a ter todos os elementos certos para uma experiência genuinamente divertida. É perceptível que o modo online não é o foco, como era em Infinity no PS3, por exemplo, mas as lições tiradas dele e de outras empreitadas online da franquia estão aqui.

Todos os seus caças, mísseis e equipamentos adquiridos no single player podem ser usados no componente online, então a recomendação é avançar um pouco na história para conseguir comprar algo mais competitivo. As partidas em si são bem rápidas e no início você será derrubado muitas vezes por pessoas com melhor destreza, mas se já é gratificante derrubar alguém no single player, é ainda melhor saber que você derrotou uma pessoa de verdade e não apenas uma IA.

Os dois modos de jogo, deathmatch (esse com o nome bizarro de Batalha Real) e team deathmatch são bem simples em sua estrutura, então não espere um sistema muito complexo de matchmaking. Mais de uma vez eu e outros jogadores novatos fomos jogados em partidas com adversários nível 50 para cima, o que torna a experiência bem menos convidativa para quem não é tão insistente para continuar sendo derrubado diversas vezes.

Ace Combat 7 é um presente para quem acompanhou a série no seu auge do PS2, trazendo de volta todos os inimigos absurdos e a história recheada de intrigas e maquinações políticas. Ainda que algumas missões atreladas a limite de tempo sejam uma relíquia do passado que poderia ter continuado lá, a franquia faz sua entrada na atual geração de consoles com o pé direito.

Se você é fã da franquia, jogue sem medo, já se você for um iniciante, é uma ótima porta de entrada para uma série de caças que felizmente ainda sabe fazer o que a torna tão única.

O jogo foi testado no PlayStation 4, em cópia cedida pela Bandai Namco.

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