Agony

Agony

por Felipe Demartini

Agonia é uma palavra que define bem

E eis que você acorda, sozinho, em um lugar estranho, sem a menor noção de como chegou até ali. Ao redor, tudo é horrível, veio e com aparência demoníaca, enquanto vozes e gritos enunciam, ao longe, que algo de muito, muito errado está acontecendo. E então você segue, vendo coisas que não fazem sentido e encarando monstros que não compreende muito bem, morrendo inúmeras vezes no processo. E, então, tem que começar tudo de novo do zero.

Essa pode ser muito bem uma descrição dos momentos iniciais de Agony, jogo independente lançado pela Madmind Studio que promete levar a gente em uma viagem ao inferno. Mas, também, é uma narração de nossa própria experiência, como jogadores, durante os momentos iniciais do jogo, cujas barreiras de jogabilidade transformam tudo em, literalmente, agonia.

A proposta era de um título perturbador e chocante, em que controlamos uma alma condenada sem memória de sua vida passada e que precisa encontrar uma saída para essa situação. Na divulgação, muitas criaturas sinistras e cenas de violência extrema, além de notícias sobre material censurado e vendas proibidas em alguns países. O tipo de marketing que, normalmente, enaltece uma obra como algo muito maior do que ela é capaz de oferecer, criando expectativas erradas.

Agony é praticamente injogável, com falhas gravíssimas de desenvolvimento e planejamento. Com isso, o interesse que poderia existir sobre o jogo acaba desaparecendo completamente.

Muita promessa e pouca entrega, inclusive, é exatamente o que acontece em Agony, e suas mecânicas são o principal problema. Adotando a perspectiva em primeira pessoa como tantos outros jogos independentes da atualidade, Agony quer mostrar exatamente como um ambiente como o inferno pode ser opressor e agoniante. Estamos falando de corredores apertados, cenários escuros e inimigos que podem te assassinar com um único golpe, sem que você tenha qualquer chance.

Você, em teoria, está morto, então por que querem te matar? Só para que o jogo tenha inimigos? Questões como estas nem seriam relevantes e cairiam na tal suspensão de descrença não fosse o fato de essa dinâmica ser simplesmente punitiva. Logo de começo, Agony faz questão de mostrar que o protagonista não é apenas uma simples alma levada ao inferno, mas algo mais, cuja alma é capaz de tomar os corpos de outros condenados para continuar seguindo em frente.

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É um sistema que funciona mais ou menos como “vidas extras”, permitindo que o jogador siga em frente após ser atacado, sem ter que voltar aos checkpoints que existem, mas não são constantes. Ficar sem corpos para ocupar significa perder algum progresso e ver uma dolorida tela de game over. É uma abordagem interessante, não fosse o fato de a morte, em Agony, ser uma constante insuportável.

Como dito, os oponentes matam o usuário com um único ataque, mas vão além disso: eles também são bem rápidos e implacáveis. O jogador conta com alguns recursos, como prender a respiração para fazer menos barulho, mas ainda assim, como em Alien: Isolation, ser visto é garantia de morte, principalmente quando barreiras invisíveis e bugs são encontrados com frequência durante as pífias tentativas de fuga de um inimigo muito mais poderoso.

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O sistema de possessão tem um limite – fique desencarnado por tempo demais e você morrerá de vez. O que não ajuda, entretanto, é o fato de, em diversos momentos, os corpos estarem localizados nas proximidades uns dos outros e os inimigos demorarem a deixar o local após um assassinato. Perder “vidas” de bobeira será comum em uma tentativa de evitar a tela de game over, apenas para fazer com que ela demore um pouco mais de tempo para aparecer e seja muito mais frustrante.

Pelo caminho, labirintos e passagens secretas que seriam interessantes se não fossem todos iguais. Durante boa parte do tempo, a escuridão é tanta que o jogador não terá a menor noção do caminho a seguir nem do que deve fazer. E boa sorte tentando utilizar o sistema de waypoint, que cria uma projeção a la “Donnie Darko”, indicando o caminho a seguir – há um uso limitado e o recurso, muitas vezes, apresenta problemas, atravessando paredes ou indicando rotas ainda bloqueadas.

Agony

Luzes brilhantes, que você não saberá se são indicadores do próprio game ou não, aparecem junto a itens que, muitas vezes, se misturam ao cenário e podem acabar sendo deixados para trás. Coletar uma tocha ajuda a enxergar as coisas um pouco melhor, mas também representam um perigo, facilitando que os oponentes enxerguem o protagonista de longe. Em um game tão escuro e esquisito, porém, vale a pena correr o risco, considerando que a alternativa também é morrer, mas completamente perdido.

O visual de Agony apresenta uma visão de inferno que é, efetivamente, perturbadora. Estamos em um mundo de sofrimento, cujas regras são criadas por seres amaldiçoados e maléficos. Nada precisa fazer sentido mesmo, enquanto a agonia e a dor são a marca de um cenário do qual o jogador precisa lutar para se livrar.

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Existem ideias inspiradas e que assustam, como partes de corpos, cabeças e até mãos gigantes espalhadas pelo cenário para aterrorizar jogadores que já estão amedrontados pelos inimigos. A todo momento, encontramos NPCs que acusam o protagonista de ser o responsável por levar todos àquele local terrível, enquanto menções a uma Rainha Vermelha mostram que, realmente, há algo mais a ser descoberto aqui do que uma simples condenação por atos ruins feitos em vida.

O game melhorou um pouco nas semanas posteriores ao seu lançamento, com atualizações sendo liberadas pela produtora. Entretanto, estamos falando de correções que não são capazes de salvar um título medíocre.

O problema é que chegar ao final deste enigma e escapar do inferno não será uma tarefa fácil. Ela nem deveria ser, mesmo, levando em conta a gravidade da situação, mas em Agony, isso acontece por falhas gravíssimas de desenvolvimento e polimento, algo inaceitável em qualquer jogo, mas principalmente, em um criado por meio de financiamento coletivo. Foram tantos adiamentos e era melhor que existissem mais, se a alternativa era entregar um resultado dessa categoria.

As horas investidas no jogo renderão bem menos progresso do que deveriam, devido aos diversos problemas enfrentados. E, durante o processo de análise do jogo, os dados salvos no PlayStation 4 foram corrompidos duas vezes, causando a perda do pouco avanço que foi possível e nos obrigando a começar tudo de novo. Um martírio sem fim.

Agony

O game melhorou um pouco nas semanas posteriores ao seu lançamento, com atualizações sendo liberadas pela produtora. Entretanto, estamos falando de correções que não são capazes de salvar um título medíocre, apenas consertar eventuais erros ou falhas. Os problemas de Agony são estruturais e, neste caso, estamos falando de updates, não de milagres.

Usar esse tipo de piada pronta em uma análise não é o melhor dos caminhos, mas é exatamente ela que Agony proporciona. A ideia de proporcionar uma experiência infernal e deixar os jogadores desesperados funciona, mas da maneira completamente inversa ao que os desenvolvedores pretendiam. Agony é praticamente injogável e, com isso, o pouco de interesse que poderia existir sobre o jogo acaba desaparecendo completamente.

O jogo foi testado no PS4, em cópia cedida pela Madmind Studio.

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