Distortions

Distortions

por Felipe Demartini

Um sonho bonito e triste

Os sonhos nada mais são do que fragmentos de nossa mente. É a forma de o cérebro reorganizar informações e trabalhar com tudo o que aconteceu ao longo dos últimos tempos – e, muitas vezes, de forma quase mística, permitir que a gente reviva situações, encontre pessoas ou experimente ensejos completamente diferentes. E isso serve tanto para o bem quanto para o mal.

Em nossa mente, as coisas são nebulosas e, muitas vezes, nosso cérebro pode nos pregar peças, levando a gente para onde não queremos. Da mesma forma que podemos matar a saudade de um ente querido que não está mais entre nós, nossa cabeça também pode nos fazer reviver alguns traumas. É uma roleta que gira sem parar e sobre a qual, aparentemente, não temos controle.

É em uma situação desse tipo que a desenvolvedora brasileira Among Giants nos coloca em Distortions. Estamos na companhia de uma personagem batizada apenas como Menina por um mundo de fantasia, beleza, música e perigos, mas acima de tudo, também de lembranças e melancolia, com uma inconstância que chega a soar incomodamente real.

Distortions nos leva em uma viagem por diferentes gêneros e estilos, com trilha sonora inspirada e artes que poderiam muito bem ser colocadas na parede.

De começo, sabemos muito pouco, e aos poucos, vamos preenchendo lacunas e formulando teorias. Existem ecos de um acidente de carro, a perda de uma irmã e a presença constante de um monstro que é imponente e assustador, mas, também, bonito e aparentemente inofensivo. Ele é colorido, parece calmo, mas está acorrentado, o que nunca é um bom sinal.

Ao encontrar as peças desse quebra-cabeça meio soturno, vamos trafegando em um mundo de belezas em que as coisas não fazem muito sentido. É justamente nesse ponto que a Among Giants aproveita para desfilar um grande rol de influências e elementos, transformando Distortions, praticamente, a cada tela.

Variedade musical

Distortions

O game nacional nos leva em uma viagem por diferentes gêneros e estilos. Em um momento, nos vemos em um mundo 3D, mas na sequência, estamos sendo perseguidos por um monstro em uma visão ao melhor estilo Limbo. Momentos de exploração de cenários permitem que a gente assuma uma visão em primeira pessoa, o que vale também para criaturas, nos tensos momentos em que controlamos a Menina, mas a partir dos olhos das ameaças à vida dela.

E para nos defendermos, tudo o que temos é um violino. A protagonista parece saber se portar com o instrumento, mas não tem lembrança de canções, que também precisam ser encontradas neste mundo bizarro e permitem que ela se proteja, oculte seus passos ou siga adiante. A música parece ser o grande motor desse universo.

Distortions

Nestes momentos, a lembrança imediata é de uma mistura de Guitar Hero com The Legend of Zelda: Ocarina of Time. Às vezes, estamos livres para tocar canções de acordo com partituras encontradas pelo cenário – algo que exige uma boa dose de memória em relação ao posicionamento das notas –, enquanto em outros, seguimos canções pré-definidas e que geram efeitos específicos.

Mesmo quando não estamos tocando, há música, com a trilha sonora sendo um dos maiores destaques de Distortions. Ela alterna entre momentos mais clássicos e a agitação de um rock independente, passando também por um dedilhado de violão que, logo, soará bastante familiar ao jogador e se tornará um sinal de tranquilidade. São muitos os momentos em que é possível parar, contemplar e explorar os cenários, e nestes, a trilha sonora se faz presente de forma bastante pronunciada.

Distortions

O mesmo vale também para o conjunto visual, não sendo exagero nenhum afirmar que muitas das telas de Distortion poderiam ser colocadas na parede. O cenário tem suas falhas gráficas, com texturas que parecem não carregar e elementos que surgem apenas quando o jogador se aproxima deles. Ainda assim, não dá para não ficar embasbacado com o trabalho artístico feito pela Among Giants, sejas nas páginas do diário da Menina, nos menus de opções ou quando enxergamos longe nos trechos de mundo aberto.

O outro lado da canção

A qualidade do trabalho visual e sonoro do jogo, entretanto, não se aplica também quando o assunto é a jogabilidade de Distortions.

O título do game faz jus ao que temos diante de nós: tudo é, efetivamente, meio distorcido e estranho. Neste mundo, as coisas não funcionam exatamente como deveriam, o que permitiu a já citada variação de perspectivas e desafios, mas também, torna a experiência com o título um tanto frustrante.

A mesma qualidade do trabalho visual e sonoro do jogo, entretanto, não se aplica também quando o assunto é a jogabilidade. Em mais um daqueles clássicos casos de games ambiciosos e com muito a dizer, mas que acabam falhando no essencial, Distortions apresenta controles travados e pesados, com diversas falhas de movimentação que podem frustrar o jogador.

Distortions

Nas mudanças de perspectiva, por exemplo, é fácil se ver desorientado e, muitas vezes, acabar caindo de uma plataforma. Indicadores e elementos do cenário também podem desaparecer, impedindo a coleta de itens ou o avanço geral, obrigado o jogador a retornar a partir do último ponto salvo. A Menina, ainda, pode ficar travada em plataformas ou estruturas, ou começar a se chacoalhar caso o jogador pule para onde não deveria.

Basicamente, são falhas de polimento, mas que aparecem em quantidade grande o suficiente para minar muito da experiência. Como já dito, estamos em um universo meio estranho, e isso, muitas vezes, dificulta até mesmo sabermos quando estamos diante de um bug desse tipo ou não. Aquele item flutuando na água à distância deveria mesmo estar lá? E se saltarmos por esse abismo, onde, na verdade, deveria estar uma plataforma, o que vai acontecer?

Distortions

Existem, também, problemas relacionados na detecção de joysticks e pressionamento de botões, que nem sempre fazem o que deveriam, além de uma certa estranheza na passagem de um ambiente para outro. É claro, estamos em um mundo em que nada faz muito sentido, mas ainda assim, a falta de coesão na passagem de uma tela para a outra pode tornar as coisas um tanto confusas.

Os problemas relacionados à jogabilidade acabam surgindo como um dos obstáculos mais gigantescos para essa experiência, e acima de tudo, podem prejudicar a imersão que um game como Distortions deveria proporcionar. Os elementos grandiosos como em Shadow of the Colossus, a história intimista a la Life is Strange e a trilha sonora que muitas vezes nos lembra das músicas clássicas de Silent Hill são atrativos, mas é na amarração de tudo isso que está – ou, deveria estar – a grande força do título. Ela existe, mas aparece oculta sob uma série de falhas.

Distortions

Ao longo de nossa experiência, Distortions foi atualizado diversas vezes, recebendo diversas melhorias. No momento em que publicamos esta análise, uma semana após a chegada do título, entretanto, ainda são muitos os problemas, o que chega até a nos fazer questionar – afinal, o que impediu que o estúdio realizasse, ainda nos bastidores, esse trabalho de correção?

Seja como for, o que temos aqui é uma experiência bela e como poucas que vemos por aí, principalmente quando falamos da indústria nacional de games. Entretanto, as falhas nos elementos básicos de Distortions, provavelmente, farão com que muita gente deixe de experimentar plenamente um título intimista e incrivelmente inspirado.

O jogo foi testado em cópia cedida pela Among Giants.

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