Forza Horizon 4

Forza Horizon 4

por Felipe Demartini

O melhor de dois mundos

Entre os títulos de corrida, existe uma divisão clara entre os games de simulação, mais técnicos e regrados, considerados mais “hardcore” e difíceis, dos focados na diversão e experiência, chamados de arcade. São estilos, digamos assim, bem delimitados e com grandes expoentes, que normalmente não se misturam. Forza Horizon 4, como seus antecessores, chega como o game para unir todas as tribos.

Mais uma vez sob a batuta da Playground Games, o jogo que nos leva ao Velho Continente, mais especificamente à Grã-Bretanha, reúne tudo aquilo que os aficionados por velocidade e carros procuram, ao mesmo tempo em que traz aquela cara de, digamos, diversão, que somente um grande festival pode entregar. O resultado, mais uma vez, é um dos melhores jogos de corrida da atualidade e a conquista de mais uma pole position em seu gênero.

Como dito, estamos em território britânico, onde, mais uma vez, acontece o prestigiado festival Horizon. E como acontece com todo evento longevo, em sua quarta edição, tanto a festa quanto o game vão muito além de seus antecessores. Se a corrida já era apurada e incrivelmente divertida, espere só para ver o que te espera no momento em que as provas já competitivas de sempre acontecem em uma transição de terrenos, da cidade para as montanhas, por exemplo, e sob uma nevasca.

Mais do que nunca, os elementos climáticos servirão um papel fundamental nesse título e, às vezes, podem soar como um desafio tão grande quanto os próprios oponentes. Ao contrário do que normalmente acontece em jogos focados no estilo arcade, mudanças climáticas devem resultar em boas alterações no estilo de pilotagem, assim como muda praticamente todo o jogo.

Forza Horizon 4

As estações do ano estão entre os principais focos de Forza Horizon 4. É óbvio falar em chuva e sol, além de diferenciação de terrenos, mas é raro ver um título abordar as diferenças sutis entre uma corrida de uma manhã de outono e aquelas em um inverno mais seco ou no por do Sol da primavera. As mudanças vão desde o visual, sempre belo, mas às vezes de cair o queixo, até o comportamento dos veículos, principalmente se o jogador dispensar assistências e focar em uma pilotagem mais realística.

Mesmo com tudo apostado no bom e velho “arcadão”, porém, o jogador ainda sentirá as diferenças, afinal de contas, é esse um dos grandes pontos do jogo. Em Forza Horizon 4, a Playground Games expande as bases já firmadas por Motorsport 7 (onde esse aspecto não foi tão profundo quanto alguns gostariam) e cria um mundo plenamente mutável, não apenas pelo andamento do festival e pela multiplicidade de corridas que vão aparecendo no mapa, mas, também, pela forma como cada prova acontece dentro dele.

Sempre juntos

Forza Horizon 4

A maneira como Forza Horizon 4 lida com o mundo online também é bem digna de nota. Mais uma vez, temos um título vasto, com mapa gigantesco e povoado por jogadores online, mas não necessariamente. O sistema de Drivatares, como são chamados os, digamos, “espelhos” de amigos que também estão jogando o game, é a resposta da Playground Games, há anos, para quem curte se divertir sozinho, mas sem deixar de incluir rostos familiares nas partidas.

Forza Horizon 4 perde a alcunha de subsérie, se é que ela ainda existia, se posicionando um dos melhores e mais democráticos jogos de corrida desta geração. Um deleite do começo ao fim para todos os tipos de jogadores.

O título pode ser jogado “desconectado” do começo ao fim, porém, no mundo aberto, o jogador sempre estará em um servidor, com jogadores exibindo suas máquinas e brincando de carrinho de trombada. É a alternativa da desenvolvedora para tornar esse universo ainda mais social do que nos antecessores. Entretanto, se rolarem problemas com a internet ou, simplesmente, o jogador não quiser se conectar, também pode fazer isso e Forza Horizon 4 estará lá, disponível e sem qualquer restrição.

As corridas seguem o velho estilo da inteligência artificial que reflete o estilo de pilotagem dos companheiros, na mesma medida em que adapta esse aspecto à dificuldade escolhida pelo jogador. Explicar o sistema de Drivatares é um tanto complexo, já que eles não são necessariamente os “fantasmas” das provas de tomada de tempo, por exemplo, mas sim, um misto entre a IA que funciona segundo as especificações de simulação e desafio, unida a alguns aspectos da personalidade da população online atrás do volante.

Forza Horizon 4

O resultado não é tão flagrante quanto colocado aqui, em palavras, mas é perceptível. Um usuário que curte correr limpo, por exemplo, transferirá esse aspecto para seu Drivatar, enquanto aquele que prefere jogar sujo também transportará esse comportamento para sua contraparte virtual. Nas corridas, caso você conheça o estilo de seu amigo, é possível perceber algumas nuances desse tipo de comportamento.

Se desejar, é claro, o usuário também pode se unir aos amigos de forma direta, em provas multiplayer que, também, adicionam novos estilos e jogabilidades ao game. É possível montar um grupo, que compete junto, e também ver os resultados individuais refletindo no todo. Forza Horizon 4 é daqueles jogos em que toda ação vale pontos de reputação e a produtora parece ter tomado um cuidado especial em garantir que o jogador possa experimentar o título da maneira que preferir, sem amarras ou obrigações.

Forza Horizon 4

Isso vale também para um dos mais gigantescos conteúdos desbloqueáveis da história da franquia. São centenas de carros para escolher, desde opções bizarras como caminhões ou veículos com um único assento até as clássicas máquinas usadas por James Bond nos diferentes filmes da franquia 007 (neste caso, entretanto, estamos falando de um DLC). Logicamente, o jogador acaba restrito a usar certos carros em determinados tipos de corridas, mas Forza Horizon 4 é abrangente o bastante para permitir que todos sejam utilizados em algum momento, mesmo que seja para chegar em último e se divertir correndo com um fusquinha de rally contra veículos de alta performance.

A produtora também deu uma atenção especial a elementos cosméticos. Novamente, são centenas de skins disponíveis, com todas disponíveis para ambos os gêneros, e mais um monte de reações e dancinhas para tirar um sarro da cara dos perdedores após as corridas. Tudo desbloqueável, apenas, jogando, ou caso o jogador dê sorte nos caça-níqueis virtuais que aparecem ao final de algumas competições. Ali, é possível liberar carros, artigos desse tipo ou créditos para aquisição de ambos, mas suas notas de real não têm nenhum valor nesta versão virtual da Grã-Bretanha, pois não existem microtransações aqui.

Festa para os olhos e ouvidos

O foco na variação também aparece no layout das provas, que levam o jogador por diferentes cenários, sem nunca perder a beleza. Em uma corrida, por exemplo, você pode começar na cidade e terminar no topo de uma montanha, enquanto em outra, pode observar o belíssimo anoitecer da primavera (não há palavras para descrever esse momento, por sinal) enquanto trafega pelo campo, chegando já à noite no centro do município iluminado, que respira história e, por mais que seja fictício, efetivamente passa a impressão de estarmos na Grã-Bretanha.

Forza Horizon 4

São momentos que nos lembram do auge dos jogos de corrida de mundo aberto (Need for Speed Underground 2, estou olhando para você), mas sem aquele aspecto descolado do passado. Não que Forza Horizon 4 seja quadradão, muito pelo contrário, mas aqui, tudo aquilo que enche os olhos é plenamente real, passando a impressão de que, com as condições corretas, seria possível ter uma experiência desse tipo também no mundo real, claro, se tivermos acesso a carros de luxo e pudermos saltar sobre hovercrafts com eles.

Tais momentos, aliás, merecem uma nota à parte, não apenas por fazerem parte da já citada variação de Forza Horizon 4, mas também, por constituírem alguns dos momentos mais divertidos e malucos do game. As já clássicas provas contra aviões estão de volta, com destaque especial para aquela em que dirigimos um Aston Martin contra um caça à jato, com direito a chão tremendo durante os rasantes e tudo mais.

Forza Horizon 4

As competições fantasiosas, entretanto, não param por aí. O título investe em pequenas histórias para justificar determinadas ações. Na medida em que vai ganhando prestígio no festival e começa a chamar a atenção por suas façanhas atrás do volante, o jogador começa a ser chamado para diferentes eventos especiais.

Faltam e, ao mesmo tempo, sobram palavras para enaltecer Forza Horizon 4. Entretanto, esse também é um daqueles títulos que brilham muito mais quando jogados, do que quando assistidos ou lidos sobre.

Em um momento, por exemplo, suas habilidades serão convocadas por um YouTuber que deseja viralizar na internet. Em outro, somos convocados de última hora por um estúdio de cinema por nos parecermos demais com o ator principal, colocando a direção à prova durante, novamente, em uma perseguição contra um jato, que termina com um grande salto através de um moinho e sobre a área rural da Grã-Bretanha. Tais momentos, normalmente, terminam com uma narradora sem fôlego, muitas vezes, refletindo a sensação do próprio jogador.

Ao mesmo tempo em que há esse aspecto estarrecedor e de encher os olhos em Forza Horizon 4, pequenos detalhes também aparecem como tão impressionantes quanto. Preste atenção, durante as provas noturnas, no reflexo dos sinalizadores que marcam os checkpoints, iluminando de forma dinâmica não apenas a plateia e os outros veículos, mas também refletindo na lataria e no interior dos carros. Observe como as gotas de chuva se comportam no para-brisas, indo de um lado para o outro durante as curvas.

Forza Horizon 4

Quem tem fones de ouvido de qualidade e curte o mundo dos motores vai pirar com o barulho das máquinas em funcionamento, durante o acionamento de turbos ou trocas de marcha, enquanto, nas corridas de rally ou em terreno acidentado, é possível ouvir pedras e cascalho batendo na lataria de forma realista. Aliás, que dor é ouvir o assoalho do carro batendo no chão após um salto impressionante, mas continuar correndo como se nada tivesse acontecido, afinal de contas, Forza Horizon 4 é uma grande festa.

Entrou no caminho de nossa experiência, entretanto, a ausência de um suporte adequado a joysticks que não os oficiais da Microsoft. Caso você esteja de olho no título para PC e não possua um controle de Xbox 360 ou Xbox One, poderá enfrentar falhas de detecção em pressionamentos simultâneos, com a aceleração, por exemplo, sendo desativada automaticamente durante as curvas.

Comportamentos intermitentes e falhas na detecção da movimentação do analógico também aparecem aqui e ali, mesmo com a utilização de gambiarras para fazer o Windows acreditar que estamos utilizando um joystick da Microsoft. Testamos o game antes de seu lançamento e, claro, isso pode ser corrigido após a chegada do jogo; ao mesmo tempo, porém, Forza Horizon 3 conta, até hoje, com relatos de falhas dessa categoria, o que motivou a citação dela por aqui.

Forza Horizon 4

Essa, entretanto, é praticamente a única falha grave do game, junto, talvez, com as assustadoras caras de cera dos personagens – que não importam tanto assim, afinal, estamos falando de um título de corrida. O jogo é, o tempo inteiro, um deleite. Faltam e, ao mesmo tempo, sobram palavras. Este review é elogioso, da forma como o game merece e enaltecendo todas as suas características incríveis. Entretanto, é também um daqueles títulos que brilham muito mais quando jogados, em vez de assistidos ou quando se lê sobre eles.

Isso porque o cuidado da desenvolvedora vai desde os pequenos detalhes até o macrocosmo, entregando algo que faz, efetivamente, jus à alcunha de festival. Se a franquia Forza já era mais do que consagrada no mundo dos games, Forza Horizon 4 tira toda a alcunha de subsérie, se é que ela ainda existia, se posicionando como um amálgama do que há de melhor nos estilos de corrida arcade e simulação. Há algo para todo mundo aqui, em um dos melhores e mais democráticos jogos de corrida desta geração.

O jogo foi analisado no PC, em cópia cedida pela Microsoft.

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