High Hell

por Fernando Scaff Moura

Um mundo vermelho e cinza

High Hell coloca você no papel de uma caçadora (acho que o gênero da protagonista é feminino, pelo menos) de traficantes demônios do inferno. O jogo é um first-person shooter vintage, com cenários interessantes e um frenesi de tiros. O melhor de tudo: brasileiro, mais um título sendo lançado pela Devolver Digital.

A parceria dos criadores de jogos estranhos Terri Vellmann (Heavy Bullets) e Doseone (Enter the Gungeon, Gang Beasts) criou a Beast Cartel, e essa união trouxe um jogo de chutar porta e detonar traficantes de drogas. “O pitch original só tinha jogadores chutando portas e incendiando sacos de cocaína, mas isso teria sido uma descrição estranha para a classificação indicativa, então adicionamos um monte de armas e violência”, observou Fork Parker, diretor financeiro da Devolver Digital.

Demônios à solta

As fases começam com você invadindo um prédio. Sua missão principal é informada, e pronto. Você tem sua arma e um caminho de tiros pela frente.

A cada estágio que se avança, uma história começa a ser contada. O simples cartel de drogas parece ter um chefe demônio e, não só isso, talvez eles não estejam só envolvidos com drogas – algo muito mais sombrio e estranho está por trás de tudo.

Uma das coisas legais que o jogo propõem são algumas situações inusitadas onde estão os bandidos, que aparecem salas lotadas de latas de cerveja, laboratórios de cocaína ou espreguiçadeiras embaixo de um guarda-sol. São detalhes que colocam humor nos cenários vermelho e cinza.

Chutar a porta nem sempre é a melhor solução

Uma das coisas que mais chama a atenção no jogo é o prazer que dá em chutar portas. Elas simplesmente se estraçalham com a bicuda, com pedaços que voam para todos os lados. Chutar coisas é algo realmente gostoso de se fazer, principalmente quando isso também serve de início a um tiroteio insano.

No entanto, se você prestar atenção, é possível encontrar rotas alternativas em algumas fases. Fazendo um pouco de parkour, pulando pelas beiradas ou se jogando de uma sacada para outra, dá para encontrar todos os inimigos de costas, esperando aquela porta ser detonada. A cena é até cômica, mas logo que o primeiro tiro é dado, a ação volta ao normal.

Esses cenários bem elaborados também servem para esconder itens secretos, como um pequeno boneco de pano dos inimigos, fazendo valer a pena explorar cada cantinho do mundo. Ao final da fase, só resta fugir, pulando do prédio ao melhor estilo James Bond.

MiniBoss

Pode ser gosto pessoal, mas adoro quando o jogo tem minibosses. Isso força você a ter que interpretar a cena e entender a melhor maneira de vencer usando as ferramentas que se tem, e High Hell tem alguns “chefinhos” bem legais.

High Hell

Os desenvolvedores acertaram em não dizer como o bicho deve ser derrotado, mas sim, permitir que o jogador interprete tudo que é mostrado, para entender o que deve ser feito. As batalhas são perigosas e épicas, um dos pontos altos do jogo.

Mas nem tudo são acertos

Tanto a mira do jogador quanto dos oponentes incomoda. Quando o jogo começa, é impossível acertar um único tiro e os oponentes quase sempre me pegavam de primeira. Essa dificuldade foi absurdamente frustrante. Algumas vezes, tentando ser o mais furtivo possível, esperava os oponentes chegarem em um ponto específico para começar a atirar, e mesmo assim, errava às vezes.

O problema era a sensibilidade do mouse, mas o ponto positivo é que isso pode ser ajustado, o que me fez respirar aliviado. A recomendação é reduzir esse aspecto pela metade. Fique atento, pois esse detalhe pode estragar toda a experiência do jogo

Já a mira dos inimigos… talvez seja questão de habilidade ou sorte. Os vilões são bons, dificilmente erram, te forçando a se manter em movimento e, mesmo assim, é melhor matar todos o mais rápido possível.

Essa pontaria certeira do jogo torna o título brutal em dificuldade. Ao mesmo tempo, por ser um jogo de level design bem rígido, você pode tratar ele como um arcade, ou seja, decorando as fases e posições dos inimigos para entrar atirando já com a mira certa. Claro que, para isso, você vai ter que morrer algumas vezes até sacar onde estão todos.

Também é possível se esgueirar e ir caçando os bandidos pelos cantos da janela, avançando pelos caminhos menos óbvios e reduzindo os riscos. No entanto, em um combate aberto, boa sorte. Espero que seu mouse esteja com uma boa sensibilidade.

A caçada vale a pena

Essa construção do cartel de drogas com demônios cultistas do mal é muito divertida. Você não coleta o dinheiro deles, somente taca fogo em tudo. Os vilões são maus mesmo, não existe dó ou piedade. O jogo tem um bom humor e trata o assunto de maneira direta.

High Hell ainda permite que se olhe o próprio reflexo em um espelho, mostrando quem você é no jogo. Isso também é um detalhe muito interessante, pois a protagonista também não parece a mais bondosa dos seres humanos, se é que você é humana.

Como a grande maioria dos jogos da Devolver, ele acaba caindo em uma mecânica única e repetição de objetivos. Não que isso seja muito negativo, mas seria legal ter armas diferentes ou alguma novidade clara ao longo do jogo. Mesmo assim, essas preocupações com os detalhes, dentro de um título sólido, com ótimo level design e progressão de dificuldade, fazem de High Hell um ótimo título para ter e se divertir.

O jogo foi analisado no PC, em cópia cedida pela Devolver Digital.

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