Hitman 2

por Caio Vicentini

Ninguém é intocável

Hitman 2 é a continuação do soft reboot da franquia, lançado em 2016 pela IO Interactive. Ao contrário de seu antecessor, os jogadores agora poderão desbravar os seis capítulos de uma só vez e da maneira que bem entenderem, ao contrário do formato episódio do antecessor.

Ainda que receba a nomenclatura de uma sequência, o jogo mais parece uma segunda temporada que uma progressão propriamente dita. Essa diferença é importante pois o jogo parece mais um novo pacote de missões para o primeiro jogo, com os mesmos gráficos, estrutura narrativa e level design do primeiro jogo. Dito isso, algumas arestas aqui e ali parecem mal polidas e a apresentação no geral parece apenas um pouquinho pior dessa vez.

Mais do mesmo (ainda bem)

O jogo parece mais uma segunda temporada do antecessor, com novo pacote de missões, mas apostando pesado no que fez o anterior um sucesso em termos de level design e estrutura, com pouca progressão.

É muito difícil um jogo encontrar uma identidade própria em um mercado tão saturado como o atual. No gênero de stealth, então, a sombra de um certo soldado da Foxhound e um agente da Third Echelon são grandes demais para se sobrepor, mas a franquia do Agente 47 encontrou seu triunfo em abrir mão da linearidade das missões e criar um playground gigantesco para seus jogadores. Não existe apenas um único caminho, ou um método certeiro para cumprir um objetivo, pois aqui a palavra da vez é experimentação.

Mais de uma vez, me peguei progredindo com um plano em mente para, então, encontrar uma brecha, uma oportunidade de concluir a missão de outro jeito. É quase intimidador o quanto a IO expandiu os cenários e métodos de se concluir uma missão, mas ao mesmo tempo, isso serve como um incentivo para tentar de novo e melhorar sua pontuação, fazendo de um jeito mais ousado e perigoso.

Tudo que eu descrevi no parágrafo acima pode se aplicar perfeitamente para o primeiro jogo, com o segundo apenas aumentando o leque de opções disponível. É um caso em que fazer o mesmo que o jogo anterior não é algo de todo ruim. O jogo ainda mantém a opção de você seguir uma oportunidade sendo guiado pelo jogo com o que fazer, mas a verdadeira diversão está em descobrir sozinho o que fazer e, quando não der certo, improvisar.

Devo admitir que, nas primeiras vezes em cada missão, foi um pouco difícil entender como fazer certos eventos acontecerem, mas são tantas as opções que eu simplesmente poderia transitar de uma forma para outra conforme minha necessidade.

O mundo é a sua arma

Em nosso preview da BGS, isso já foi dito e, agora, será repetido: os cenários de Hitman 2 são absurdamente grandes em relação ao que foi visto na franquia anteriormente. Em 2016, já era impressionante o esmero em trazer à vida um pequeno vilarejo, com direito a uma mansão e laboratório subterrâneo. Agora, temos, por exemplo, uma porção bem generosa de uma cidade à nossa disposição, com distritos e até um prédio inteiramente acessível.

Indo além do tamanho, algumas casas com importância para a missão têm seu interior totalmente modelado, além de existir uma infinidade de maneiras de se infiltrar em certos lugares. A magnitude dos cenários reflete também a quantidade de opções à disposição do jogador. Desde os clássicos cabo de aço e envenenamento, indo a ocasiões únicas como sabotar o carro do alvo ou afoga-lo em um aquário. O jogo pergunta à você que tipo de assassino você seria, um meticuloso e paciente franco atirador, um mestre dos disfarces eliminando todos como um verdadeiro fantasma ou um serial killer com um gosto em espancar pessoas com peixes. As possibilidades são infinitas.

Os melhores cenários são os de Mumbai e Vermont, coincidentemente as missões que se passam em áreas urbanas mais abertas com muitos eventos paralelos acontecendo. No primeiro, temos uma favela inteira recheada de pessoas conversando e brigando entre si em meio a um prédio em construção que também serve de set de filmagem para um filme de Bollywood. Enquanto no outro, uma campanha política acontece ao mesmo tempo que uma festa familiar no quarteirão ao lado. Esses microuniversos acontecendo são um trabalho incrível de caracterização do pessoal da IO que não é encontrado em outros jogos da atualidade. Tudo isso mantendo, em boa parte, uma taxa de 60 quadros por segundo, exceto em alguns momentos com muitos personagens na tela e partículas voando.

Hitman 2 encontra espaço em um mercado saturado ao abrir mão da linearidade das missões e criar um playground gigantesco para os jogadores. A palavra da vez é experimentação.

Com os mundos maiores, a rotina dos alvos também aumenta, o que talvez explique alguns bugs que foram encontrados no game. Em algumas ocasiões, eles simplesmente travam e ficam parados, sem retomar sua rotina para que encontremos uma brecha. Em mais de uma ocasião, o personagem a ser assassinado não saia de um lugar lotado de pessoas, e quando eu tentava chamar sua atenção para um local mais isolado, eram sempre seus guardas que iam em seu lugar.

Isso pode ser incrivelmente frustrante em um jogo que depende muito de planejamento preciso para ser sorrateiro e tudo vai por água abaixo por um problema do jogo. Outro pequena falha é o mapa um pouco confuso de se navegar. Na interface, ele funciona bem e você pode customizá-lo de forma que mostre mais ou menos informações, dependendo do tamanho do desafio que deseja, mas quando verificamos o disponível no menu de pausa, a sensação é de chegar perdido e sair confuso ao olhar todos aqueles ícones não intuitivos espalhados pelo cenário, quase como um incentivo a decorar de cabeça as localizações ao invés de depender de um mapa para se guiar.

Muito drama para pouco

Poucas pessoas jogam Hitman por sua história, pois, assim como outras franquias, o jogo a usa apenas como uma desculpa para te jogar em cenários ao redor do mundo, sem muito investimento pessoal. Desde 2016, no entanto, o enredo monta aos poucos uma jornada mais íntima e pessoal para o Agente 47, com revelações de um passado que foi durante muitos anos pouco abordado pelos jogos. Isso cria uma motivação sentimental ao redor do que você faz a partir da penúltima missão, não sendo mais alvos que seus superiores determinam, mas agentes diretos das causas que tornaram o protagonista da franquia quem ele é atualmente.

Infelizmente, os momentos propícios para se criar essa motivação pessoal no jogador não são bem aproveitados, sendo relegados a cutscenes estáticas (ao contrário daquelas totalmente animadas e modeladas do anterior), que revelam sem muito entusiasmo novos pedaços de enredo e sem muito desfecho aparente. Toda a expectativa de um confronto com o cliente anônimo, um antagonista que aparenta ter o mesmo nível de preparo e treinamento que o Agente 47, parecia muito promissor com o palco montado no primeiro jogo, para ser resolvido de maneira bem anticlimática no decorrer da campanha atual.

Hitman 2

É bem aparente que a história foi planejada ao redor do foi decidido sobre os cenários e não o oposto. Não ajuda também criar um enredo que parece querer instigar revolta sobre um personagem famoso por ser extremamente frio e sem emoções. Ainda assim, dentro do jogo, os desenvolvedores aproveitaram essa (falta de) personalidade do protagonista para criar algumas situações bem cômicas, fazendo uso do humor negro e seco pelo qual a franquia é bem conhecida. Poucas coisas são mais engraçadas que o entusiasmo do Agente 47 descrevendo uma casa como um corretor de imóvel.

Hitman 2 aposta pesado no que fez o primeiro jogo um dos favoritos do ano deste que vos fala. Os cenários são ainda maiores, as possibilidades ainda melhores e mais criativas. Infelizmente a história se arrasta sem muita previsão de ter algum tipo de desenvolvimento real, pelo andar da carruagem. Ainda assim, você não precisa da história para explodir um carro de corrida enquanto seu personagem está vestido de flamingo, então a diversão é garantida, ainda que em um pacote um pouco simples demais.

O game foi testado no PS4, em cópia cedida pela Warner Bros. Games.

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