Kona

Kona

por Felipe Demartini

Uma pérola fria e intrigante

Existem jogos que são como grandes filmes, apresentando ação cinemática, diálogos inspiradores e até mesmo a presença de famosos. Poucos, entretanto, se desenrolam como livros, com The Vanishing of Ethan Carter sendo um exemplo do tipo. São games que te colocam dentro da história, mas deixam que você a explore e siga o caminho que preferir, descobrindo pistas a cada passo e mistérios que o motivam a seguir adiante.

Kona, o primeiro de uma série de quatro títulos da Parabole, um estúdio canadense independente, é assim. Uma história de mistério como somente as páginas poderiam contar, misturando realismo e um caráter sobrenatural, e trazendo junto aspectos que somente os jogos são capazes de trazer. Imagine-se lendo um livro e descobrindo suas nuances, mas ao mesmo tempo, tendo que tomar cuidado para não morrer de frio.

O título nos coloca nas gélidas paisagens do norte do Canadá. Mas, antes mesmo disso, mostra um pouco de suas influências ao nos presentear com uma trilha a la Silent Hill, ao melhor estilo de Akira Yamaoka, logo na tela de início. Serve como forma de mostrar em que os desenvolvedores se inspiraram, pelo menos como parte da aventura.

Estamos na pele de Carl Faubert, um investigador que vê a vida como um marasmo gigantesco, mas acaba se interessando pelo caso de W. Hamilton, um industrialista que domina a região enquanto recebe a hostilidade dos locais. Um caso de depredação rapidamente se transforma em algo muito maior quando o cliente do detetive aparece morto e ocorrências sobrenaturais são localizadas nos arredores.

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Elementos de jogabilidade, como itens encontrados pelo chão, notas espalhadas por aí e o que restou dos habitantes do local contam o enredo tanto quanto a narração em si. Enquanto o diário de Carl indica o caminho a seguir e também eventuais lacunas a serem preenchidas, a voz do além que nos conta a história de tempos em tempos servem para inserir elementos mais individuais, como a sensação do protagonista, suas conclusões ou, simplesmente, manter um certo mistério.

Como em uma boa obra, por mais que ela tenha seus problemas, o leitor sempre chegará à última página querendo saber o que vai acontecer a seguir.

Essa via segue em duas mãos. É interessante ver a história se desenrolando como um livro, mas ao mesmo tempo, a narração é capaz de destruir algumas expectativas ou teorias, derrubando-as antes que um elemento encontrado a seguir, por exemplo, possa fazer isso. A voz não entrega spoilers nem nada do tipo, mas pode quebrar expectativas e tornar o enredo um pouco mais linear do que deveria.

Uma nota que não intefere no andamento do título, mas que pode afastar os jogadores, infelizmente, o game não conta com localização para o português. Como um game fortemente focado na exploração, leitura e narração, muitos jogadores podem ser deixados de lado por não falarem idiomas estrangeiros.

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Apesar de quebras no envolvimento aqui e ali, entretanto, Kona traz uma história bastante interessante e bem contada. Chama a atenção o fato de que estamos em um mundo aberto, e o jogador pode seguir o caminho que quiser- claro, com algumas limitações – para chegar a um mesmo objetivo. Assim, é capaz de descobrir elementos posteriores do enredo, mas eles não farão sentido sem as peças anteriores. Percebe-se o trabalho de qualidade de um roteirista quando as peças se unem não importando a ordem em que foram coletadas, e aqui, a Parabole acertou.

Sobrevivência nada fácil

O aspecto literário de Kona aparece lado a lado com um toque de sobrevivência, com Carl seguindo sozinho pelos ambientes nevados do Canadá e tendo que buscar itens para sobreviver. Lenha, fósforo e outros artigos serão essenciais, pois você vai andar muito por aí, e os movimentos e raciocínio do detetive são reduzidos na medida em que o frio vai aumentando.

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A análise do mapa será essencial. Será que vale a pena seguir a pé até aquela casa à distância ou retornar para pegar o carro? Um veículo pode ser visto lá longe, mas Carl já está perto da hiportermia, e agora? Assim como na vida real, o frio mata de forma incrivelmente traiçoeira e, se não tomar cuidado, o jogador pode se ver caindo sozinho, no meio do nada, com a empolgação ao redor do mistério se tornando apenas uma vaga lembrança.

Onde a trama nos leva cada vez mais adiante e instiga o jogador a continuar, entretanto, a jogabilidade deixa a desejar. Controlar Carl pelos cenários é como pilotar um tanque, com uma movimentação pesada e indicadores não responsivos. Jogar Kona com um crosshair na tela é quase essencial, uma vez que as interações com os objetivos não funcionam como deveriam. Muitas vezes, você se verá movimentando a câmera por um tempo até achar a localização exata do comando de pegar um determinado item, pois nem sempre apenas ficar em frente a ele adianta.

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Kona também não apresenta tutoriais, mas tem uma interface cheia de elementos. Em situações pontuais, indicadores aparecerão na tela, normalmente, para indicar a situação do personagem, requerendo o uso de um kit de cura, por exemplo. De resto, assim como no mundo em si, o usuário deverá descobrir por si só como tudo funciona, uma escolha que tem seu grau de desafio, mas pode se tornar um inconveniente rapidamente diante dos ícones minúsculos e, muitas vezes, pouco claros que surgem na tela.

Logo no início da aventura, não se assuste se o título parecer travar de repente – você simplesmente chegou a um espaço que ainda requer loading. Em vez de recorrer a mensagens na tela, animações ou qualquer tipo de indicativo, a Parabole preferiu apostar em cortes completos na ação, que parecem problemas e levam o jogador a questionar se o progresso até ali foi perdido, pelo menos até uma discreta rodinha aparecer na tela para mostrar que o jogo está carregando.

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Incomoda um pouco, também, a trilha sonora repetitiva, que claramente, está lá apenas para não deixar Kona envolvido no completo silêncio. Essa, entretanto, seria uma alternativa bem melhor, que ornaria com a sensação de solidão e os cenários vazios e frios, do que termos um loop de temas tocando sem parar. Uma tristeza para quem, logo de início, se animou com a música inspirada no mestre Yamaoka, que se torna, depois, apenas uma canção sendo reproduzida, também repetidas vezes, no rádio.

Como se trata do primeiro game de uma quadrilogia, Kona pode ser finalizado com cerca de seis horas de jogo. É o bastante para que o estilo do game não canse e, ao mesmo tempo, deixe o jogador querendo mais. E, aqui, está o maior acerto da influência literária do título, já que como em uma boa obra, por mais que ela tenha seus problemas, o leitor sempre chegará à última página querendo saber o que vai acontecer a seguir.

O jogo foi analisado no PS4, em cópia cedida pela Deep Silver.

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