Lost Sphear

por Fernando Scaff Moura

Sentimentos criam memórias

Lost Sphear é um RPG japonês clássico e impecável, perfeito para quem sempre quis jogar algo assim mas não sabe por onde começar. Ele não é denso e repleto de mecânicas complicadas ou diálogos longos e chatos para assustar os iniciantes no gênero e, ainda assim, tem tudo que os bons JRPGs oferecem: personagens legais, uma história interessante e golpes diversos e impressionantes.

O jogo começa apresentando um personagem poderoso que, sem te ensinar nada, te joga na briga. No entanto, o importante aqui é o diálogo, o gancho para uma história que ainda está por acontecer. E, assim, como quem não quer nada, você acorda. Nada mais clássico em JRPG do que o protagonista acordar em sua cama, pronto para iniciar mais um dia.

Lost Sphear

Você controla Kanata, um jovem espadachim do vilarejo. Na porta, o jogador encontra Lumina, sua amiga rude e forte. No entanto, todos do local sentem a falta do amigo de vocês, Locke, afinal, todos sabem que o grupo é inseparável. É com essa turma, saindo de uma cidade no interior de um mundo fantástico repleto de magia e mistérios, que começa a busca pelo extraordinário e por problemas grandes demais

Como eu disse, clássico. Todo JRPG inicia assim, salvo por alguns detalhes. Contudo, nada aqui é realmente novo. Não que isso seja ruim, talvez seja isso que faça o game ser tão legal.

Um jogo bem feito

Lost Sphear

Mesmo que tudo aqui seja mais do mesmo, Lost Sphear tem algumas soluções diferentes para problemas antigos do gênero. Todos estes títulos do passado trazem uma sensação de o herói estar pronto, salvar o mundo era algo que tinha que acontecer com eles. Claro, são heróis, e é isso que eles fazem. Mas não é o caso em Lost Sphear.

Lost Sphear é um RPG japonês clássico e impecável, perfeito para quem sempre quis jogar algo assim mas não sabe por onde começar.

É bastante claro que você, como jogador, irá dar sequencia à história e salvar o mundo e tudo mais, do contrário não haveria jogo e história a ser contada. Contudo, a forma como tudo desenrola faz todo sentido, tem muito sentimento e personalidade envolvidos aqui e isso cria um carinho pela narrativa e seus personagens.

Kanata é um líder, mas não como um estrategista tático, ele é simplesmente alguém que tenta fazer as pessoas se sentirem bem, tentando conter as personalidades e atitudes de seus dois amigos que, por sua vez, são engraçados e com personalidades fortes. Lumina e Locke fazem ótimos papeis de heróis secundários, se provocando e criando situações diversas e diálogos interessantes.

A história revela que o mundo está desaparecendo, e cabe a você tentar juntar os sentimentos para transformá-los em memórias e, com elas, fazê-lo “lembrar” de si mesmo. Um enredo lindo, forte e com efeitos gráficos muito legais!  Porém, caso essa premissa de narrativa não tenha despertado em você nenhuma lembrança, deixe-me usar seus sentimentos para ativar sua memória.

Atreyu e Artax.

Nada? Porra, “História Sem Fim”, mano.

Enfim… A premissa é a mesma, claro, sem a parte dos livros e da viagem entre mundos que tornam “História Sem Fim” um dos grandes livros de fantasia. Mas o plot é bem parecido. Não que eu ache a ideia ruim, de fato, é uma história legal a ser explorada, além disso, os sentimentos e as memorias são uma mecânica bem legal de jogo, permitindo trazer de volta coisas quem nem existem mais, porém, por ainda existir sentimento sobre essas construções, é possível rematerializá-las. É algo diferente e interessante, que altera a forma de jogar.

Outra coisa legal na narrativa é que o jogador pode conversar com seus colegas de equipe apertando um botão. Normalmente, Lumina presta mais atenção nas conversas e irá lembrar para onde vocês estão indo – é uma ótima maneira de dar uma dica caso você esteja perdido. Esses diálogos são bem diversos, algumas vezes repetindo as mesmas linhas, mas normalmente, caso fique insistindo na conversa, dá para observar alguns novos diálogos que falam um pouco mais do relacionamento entre os personagens. Sutil, mas bem agradável.

Além de uma boa narrativa, os JRPGs têm um detalhe que é muito significativo: suas mecânicas de combate. Existem diversas alternativas aplicadas ao longo das décadas. Lost Sphear não é um RPG de ação, e sim, retorna ao clássico combate por turnos com contador de tempo. Cada personagem tem uma barra que, quando carregada, permite escolher uma ação e realizá-la. Porém, aqui temos um toque adicional – enquanto você seleciona o que fazer, o tempo fica parado, porém, após a seleção, ele volta para que possamos escolher qual inimigo atacar enquanto o contador corre. Agora, você pode se mover e deve se posicionar de forma a causar o maior dano possível.

Esse detalhe causa certa urgência, transformando o combate em um puzzle de ação curioso. Às vezes, um personagem tem um golpe longo em linha reta, e se você rodá-lo no campo de batalha, poderá atacar diversos inimigos em linha. No entanto, se demorar demais, o inimigo pode atacar e você acaba perdendo um alvo.

Esse sistema é parecido com muita coisa já feita, mas ao mesmo tempo, é diferente de tudo. Lost Sphear traz uma combinação de mecânicas que fica muito bem resolvida e cria combates complexos e urgentes. Porém, caso queria jogar de forma simples e rápida, basta selecionar e confirmar o ataque que pelo menos um inimigo irá receber dano.

Um mundo que vale a pena salvar

Tenho que admitir que Lost Sphear não me impressionou por ser um jogo novo, mas sim pelos detalhes. Ele te ganha nas pequenas coisas e mudanças que fez, sem perder as formas clássicas de um JRPG.

Ele tem muita nostalgia. Fazia muito tempo que eu não jogava algo desse gênero, mas, encontrando tudo de novo, nos mesmos lugares, me senti visitando um lugar familiar, mas que pelos detalhes, se torna diferente. É como encontrar um grande amigo após muito tempo, você sabe que é ele, mas nitidamente, não é mais a mesma pessoa.

Lost Sphear

Ao analisar o título e encontrar cada nova situação, pensava que, depois de resolver aquilo, começaria a escrever. Depois de limpar essa área,  paro e escrevo. Quando vi, quatro horas já haviam se passado e eu ainda estava jogando, subindo de level, comprando equipamentos novos e escolhendo magias interessantes.

São muitos detalhes criados para te manter focado. Por exemplo, existem alguns restaurantes que querem fazer uma comida especial e precisam de ingredientes e, como o mundo é um lugar perigoso, eles sempre perguntam se você tem o que eles precisam. É uma quest paralela, completamente irrelevante, mas que ajuda a dar um pouco de profundidade no mundo.

Assim, Lost Sphear vale a pena jogar caso você nunca tenha se interessado em JRPG clássicos e sempre quis algo para começar a conhecer o gênero. Mas, também, vale experimentar pela nostalgia. Permita-se explorar esse jogo, curta a jornada e, no final de tudo, salve o mundo.

O jogo foi analisado no PC, em cópia cedida pela Square Enix.

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