Mad Max

por Durval Ramos

Terra de ninguém

Mad Max é como o Magnum Opus, o carro usado pelo herói em todo o game: bruto e “cru”. Ele impacta já à primeira vista, mas você logo percebe o quanto ele é imperfeito e cheio de remendos, mas nem por isso deixa de ser uma máquina interessante.

E o jogo é realmente essa grande mistura de sentimentos e impressões. O que tinha tudo para ser mais uma tentativa frustrada de adaptar um filme ganhou contornos muito mais atraentes à medida que conhecíamos mais sobre sua proposta e, agora que o título finalmente chegou aos consoles, vemos que ele está bem longe de ser tudo aquilo que nos foi prometido — mas, ainda assim, consegue garantir boas horas de exploração das Wastelands. Assim como o veículo usado por Max, ele mantém seu charme em meio àquele monte de sucata.

Mad Max

Embora seja repleto de péssimas decisões de direção, Mad Max é um jogo que cumpre aquilo que há de mais importante: ser divertido. E, se ele não consegue chegar cromado e brilhante aos portões do Valhalla, pelo menos faz com que a viagem até lá valha a pena.

Terra desgraçada

O principal desafio de um jogo de mundo aberto é equilibrar tamanho e conteúdo. No entanto, o que acontece quando a proposta básica do game exige que esse enorme mapa seja um grande vazio? Pois esse é exatamente a grande questão de Mad Max, que precisa recriar a vastidão das Wastelands ao mesmo tempo em que traz coisas para que o jogador não se sinta no meio do nada e sem ter o que fazer. E o que vemos é um grande conjunto de erros e acertos.

Em termos de ambientação, a Avalanche Studios fez um ótimo trabalho. O estúdio soube como trabalhar com universo dos filmes e adaptou isso muito bem, principalmente ao se apropriar de elementos já conhecidos para criar algo próprio. O deserto é realmente grandioso e você se sente engolido por aquele cenário árido e desgraçado, sentindo-se um sobrevivente como o próprio Max.

O principal problema de Mad Max não é o fato de ser repetitivo, mas sem criatividade. É como se ele tivesse uma ideia-base para seguir e colocasse todo o resto apenas para constar.

Por outro lado, a forma como esses elementos é costurada tem seus problemas. Ao contrário do que possa parecer, você não sofre de falta do que fazer em momento algum. Em suas viagens a bordo do seu Magnum Opus, sempre surge algo para chamar sua atenção, seja um inimigo em perseguição, um local para explorar ou mesmo uma paisagem para ser admirada. Porém, o jogo não consegue fazer com que você tenha experiências diferentes além dessas.

É curioso ver como Mad Max conseguiu contornar um problema tão complicado quanto o de harmonizar tamanho e conteúdo, mas derrapou na hora de criar momentos diferenciados. O grande problema por aqui está exatamente na falta de criatividade, fazendo com que a jornada do herói seja  bem repetitiva. Quase como na loucura do próprio personagem, é como se você entrasse em um enorme looping em que o mesmo desafio acaba sendo repetido várias e várias vezes.

Isso fica ainda mais complicado quando você se dá conta que o game quase não possui uma trilha sonora. Quer dizer, ela está lá, mas é tão discreta que passa despercebida na grande maioria das vezes e desaparece quando você está cruzando o mapa. Tudo bem que a ideia é dar destaque para o som do motor, mas fazer com que o jogador cruze um imenso mapa vazio sem ouvir nada além do ronco do seu carro é intensificar a sensação de que não há nada ao seu redor. É um gigantesco erro de direção e que, embora possa passar despercebido, incomoda bastante.

Mad Max

Isso não é o suficiente para fazer com que o jogo seja ruim, mas certamente garante vários arranhões em sua lataria. Um exemplo prático de como as coisas não evoluem são os chefes que você encontra em seu caminho, que se comportam da mesma maneira. Do começo ao fim, você encontra o mesmo padrão de movimento e usa a mesma estratégia para vencê-los. Mais do que isso, os chamados Chefes de Matilhas — inimigos que protegem alguns fortes espalhados pelo mapa — são exatamente iguais entre si, mudando apenas a cor de sua roupa. É a mesma saída vagabunda que tínhamos em Final Fight, só que 25 anos depois.

O combate lembra muito aquilo que vimos nos jogos do Batman, só que mais lento e sem todas aquelas acrobacias. Max é bruto e você sente o peso de cada soco — tanto que aperta o botão um pouco mais forte por puro instinto.

E a pergunta é: por quê? Mad Max possui um universo tão rico e ímpar que chega a ser um desperdício ver tudo isso ser condensado em algo tão pouco criativo assim. O mais irônico disso tudo é que a Avalanche conseguiu captar a essência da série em tantos pontos, incluindo em sua estética e design, que é difícil entender o que aconteceu. É como houvesse uma ideia-base servindo de norte e todo o resto tivesse sido colocado apenas para criar volume, sem o menor capricho.

Por outro lado, o jogo compensa essa falta de criatividade ao acertar o tom na jogabilidade. À primeira vista, ele lembra muito Middle-earth: Shadow of Mordor, mas muito mais cru. Não há movimentos rápidos e acrobáticos no combate, mas uma brutalidade que se encaixa muito bem ao velho Max. São golpes pesados e que fazem você apertar o botão do controle com muito mais força apenas para ver o herói batendo a cabeça de um inimigo contra a quina do carro.

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A loucura vicia e isso fica ainda mais claro quando partimos para a essência de Mad Max. Afinal, não estaríamos falando de uma adaptação se ela não desse destaque para os carros. E, nesse sentido, não há do que reclamar. Os momentos em que você precisa enfrentar os grupos rivais a bordo do Magnum Opus são muito divertidos, principalmente por conta das várias armas que você tem a seu dispor e das estratégias que podem ser aplicadas em cada confronto. Estourar o pneu, explodir o veículo inimigo ao atirar no tanque de combustível, arrancar o piloto com seu arpão ou simplesmente bater até não restar nada daquela ameaça: fica a seu critério decidir como sobreviver.

E, ao contrário do que possa parecer, controlar essa máquina de guerra não é nenhum problema. Mad Max oferece uma série de opções de personalização para seu veículo que, além de influenciarem em seu atributos de ataque e defesa, também alteram sua velocidade e manuseio. Isso é um convite para que você experimente e teste as diferentes configurações para ter o melhor carro em cada tipo de situação.

Mad Max

Aliás, quando estiver no meio de uma perseguição, coloque a trilha sonora do último filme de fundo e você vai ver como tudo vai ficar muito mais épico — ainda mais se você cair no meio de uma tempestade.

Colcha de retalhos

Outro acerto de Mad Max em sua ambientação foi saber dosar a quantidade de elementos retirados do filme com aquilo que é original. Ainda que ele tenha muitas referências da série, ele traz muito coisa própria. Tudo aquilo que faltou de criatividade para a criação de desafios e momentos diferenciados de jogabilidade sobra quando vemos no cuidado que a Avalanche teve na hora de nos mostrar como é a vida dos sobreviventes das Wastelands. E é nessas horas que o jogo te mantém preso e curioso.

A história não é lá essas coisas, mas nos apresenta bem os diferentes núcleos e o modo como cada grupo arranjou para sobreviver àquela realidade. Em sua jornada para construir um carro que substitua o Interceptor destruído, Max encontra fanáticos religiosos, líderes que controlam os outros pelo medo e aqueles que se apegam à esperança de sair daquele mar de areia em direção a um lugar que seja parecido com o mundo de antes. Mais do que isso, o próprio protagonista entra nessa luta contra tudo e todos para chegar a um local onde consiga fugir de sua loucura — mesmo sem ter a certeza de que ele existe de verdade.

Mad Max

Mesmo com uma história bem qualquer coisa, o jogo sabe aproveitar muito bem a mitologia da franquia. Ele não se baseia nesse ou naquele filme, mas usa elementos de cada um para criar algo próprio. Ele está no mesmo universo e isso basta.

Essa saída acaba se revelando o maior trunfo de Mad Max. Como não se inspira em nenhum filme de maneira específica, ele escapa dos problemas que afetam a grande maioria das adaptações. Ele se aproveita de elementos apresentados ao longo da série para aprofundar e expandir a mitologia. Há várias referências a Immortan Joe — o próprio vilão do game é um dos filhos do personagem —, o visual do herói remete muito ao Mel Gibson e até mesmo a Cúpula do Trovão está de volta. Só que esses pontos servem de ponto de partida para o que jogo apresenta.

O game não deixa se deixa limitar pelo material-base. O que ele faz, na verdade, é juntar todas essas referências em uma enorme colcha de retalhos de modo que elas tragam algo a mais em termos de jogabilidade e narrativa. Às várias citações ao vilão de Estrada da Fúria, por exemplo, não são por acaso e todo o culto feito pelos Kamikrazies se converte em um desafio que você precisa resolver durante os confrontos, principalmente quando o seu carro começa a ser invadido por inimigos de todos os lados. Até mesmo aquela tempestade de areia que vimos no último filme está presente e se revela um desafio e tanto — principalmente enquanto você está fugindo.

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Além disso, ele não se preocupa em se situar em algum momento da cronologia. Ele apenas usa pontos conhecidos para dizer que tudo se passa no mesmo mundo, mas não antes desse ou daquele filme. Ele apenas está lá. É algo que o próprio cinema já fazia e que foi muito bem reproduzido por aqui.

Derrapando sem capotar

Como dito no começo do texto, Mad Max é um jogo parecido com o seu carro: bruto e cru. E não apenas em termos de jogabilidade, mas também em sua parte técnica. Ele surpreende por sua enorme quantidade de detalhes, pelo visual de encher os olhos e até mesmo pela arte da Wastelands. Por outro lado, ele é tão cheio de bugs e problemas que é impossível você não se irritar.

Na grande maioria dos jogos, esses defeitos são pontuais e aparecem em momentos bem específicos, atrapalhando a experiência. Porém, neste caso, a coisa é um pouco mais séria. Chegar a 30 fps é uma verdadeira dádiva, já que a maior parte do tempo o desempenho é bem menor. E, num game cujo foco é velocidade e carros, ver tudo rolando em câmera lenta é muito frustrante. E isso não é algo exclusivo dos momentos de direção, já que o slowdown também ocorre quando você está a pé. Bem, veja o vídeo abaixo e tire as suas próprias conclusões.

É curioso imaginar como um título tão problemático assim consegue ser divertido. E é por isso que a comparação com o Magnum Opus ou o Interceptor faz tanto sentido. Ele não impressiona pelo que é, mas pelo que faz. Em termos técnicos, Mad Max é uma tragédia. Seu desempenho é pífio, a quantidade bugs irrita e a falta de criatividade no level design é facilmente sentida. Por outro lado, ele capta muito bem a essência da série e traz isso respeitando cada elemento de sua mitologia. Da estética à brutalidade, tudo está ali assim como o cinema bem nos apresentou. Ele acerta a mão naquilo que importa: ambientação e jogabilidade.

Assim, se você procura uma experiência memorável ou coisa do tipo, esqueça. Eu realmente queria dizer que Mad Max é brilhante e cromado como as demonstrações me levaram a crer, mas ele está bem longe disso. Ele é apenas mediano e nada além disso. Nada de ser a redenção das adaptações de filmes ou uma nova forma de encarar os games de mundo aberto. Se é isso o que você procura, vá jogar Metal Gear ou volte para GTA V.

Mad Max

Só que ele não precisa ser nada disso para ser divertido. É claro que ele poderia ser muito mais, mas não há como ignorar o quanto é prazeroso ser o próprio Max Rockatansky ou cruzar aquele mar de areia ao som do ronco de um potente motor V8. E, mesmo cometendo vários erros, a Avalanche soube trabalhar essa ideia muito bem.

Talvez nós não precisemos mesmo de outro herói, mas ninguém vai reclamar de ser o Guerreiro da Estrada pelo menos uma vez.

O jogo foi analisado no PlayStation 4, em cópia cedida pela Warner Bros.

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