Moonlighter

Moonlighter

por Ulisses Lopes da Silva

Desafiando o destino

Para quem não lembra, o último The Legend of Zelda em 2D foi lançado em 2004 e, de lá para cá, os fãs nunca mais tiveram a sensação de controlar o Link clássico. Mas como todo bom indie que se preze deve resgatar experiências nostálgicas para a atualidade, com muitas novidades, é com esse carinho e admiração que falaremos de Moonlighter.

A obra-prima da Digital Sun Games remete a The Minish Cap, com um adicional de gerenciamento de lojas de itens e a busca de um comerciante para reerguer sua cidade por meio de superávits e aventuras.

Moonlighter é uma feliz surpresa que conquista pelo capricho em todos os detalhes que um jogo de RPG de ação precisa ter para ser épico, tanto em gráficos, animação fluente, perspectiva superior, trilha sonora magnífica e um sistema de combate justo em que se pode confiar em suas habilidades nos comandos para fugir de grandes enrascadas.

No jogo, você é o patrocinador de uma vila que busca se reerguer depois de uma grande crise e segue em uma saga por masmorras, onde coleta os melhores produtos e matérias-primas para uma loja própria e também de outros habitantes.

 

Fico muito emotivo ao falar de Moonlighter, pois este título não é somente um grande jogo, com referências épicas a outro título clássico, mas também como um produto individual, uma grande experiência cativante que não se via há muito tempo em qualquer outro segmento de jogos, seja indie ou Triple A. É muita ternura à temática clássica de RPGs japoneses, principalmente se você os joga desde o começo da década de 1990.

Talvez esse apelo sentimental tenha se perdido ou foi misturado atualmente em títulos grandiosos, que precisam de mais atenção na parte gráfica do que no roteiro. Ou isso explique o porquê de tantos remakes de títulos antigos, porém, divago.

A saga de um NPC rebelde

Em Moonlighter você controla Will, um jovem rapaz filho de mercadores que, desde pequeno, sonhou em se aventurar pelas masmorras, cavernas místicas que surgem ao redor de vilarejos e escondem muitos tesouros e monstros. Esse é apenas um dos mistérios envolvendo esses antros de cobiça e violência, outro fator que o título aborda na mente do jogador, que precisa fazer escolhas que envolvem mais do que simplesmente “avançar e matar tudo o que aparecer”.

Will, infelizmente, nasceu em um mundo dividido entre duas classes, heróis e mercadores, e está desafiando a sociedade ao se aventurar arriscando sua vida, os negócios e o futuro da vila.

Contrariando seu destino, ele sai detrás do balcão, pega sua espada doada pelo ancião, que conhece o passado da vila e do protagonista, e embarca nas maiores aventuras, munido inicialmente de sua mochila, poções de cura e muita coragem. As dungeons mudam a cada rodada, então, memorizar caminhos não vai funcionar aqui.

Perceba que a riqueza do cenário vai além da estética e você pode ficar detido em gosmas ou deverá destruir arbustos e caixas para seguir, sem cair em buracos ou ter o progresso impedido por pedras. Tudo tem sua utilidade, caso você seja sagaz. Os comandos são parecidos com os de The Minish Cap e você tem duas opções de ataque, dependendo da arma que utiliza. Como o jogo permite reequipar até dois equipamentos diferentes, então, cabe a você criar a combinação perfeita com seu estilo de combate.

Moonlighter vai aquecer o inverno dos que buscavam uma aventura épica em 2D ou um viciante jogo de ação e gerenciamento, com grande potencial para expansões futuras.

Voltando a falar de segredos, Moonlighter vai além da premissa de empreendedor de fantasia medieval, estando envolto por mistérios que guiam o aventureiro entre salas de masmorras de variados tipos, que vão desde buracos que revelam câmaras secretas até esqueletos de aventureiros que sempre deixam uma nota de dicas para que não aconteça com você o que lhe ocorreu, isso quando não largaram itens.

Parece que existe uma energia viva no planeta, que quer atrair heróis para as masmorras e recompensá-los, enquanto tenta os matar. Esse é o maior segredo a ser desvendado, enquanto se deve gerir uma loja e reerguer uma vila falida por um motivo muito particular.

Mercador high stakes

Se você não fez o cursinho do SEBRAE, não se preocupe, pois gerenciar a loja de Will, que dá nome ao jogo, é uma tarefa fácil e divertida. Podemos separar esse trabalho em duas etapas: se preparar para os clientes e o atendimento a eles.

Como os consumidores só vêm durante o dia, você terá a noite toda para vasculhar as masmorras em busca de mais itens e produtos para suprir a fome de consumo dos aventureiros e também ladrões, por quê não?

Falando só da preparação da loja, perceba que ela se divide em duas partes: estoque/cama do Will e show room, onde toda a ação acontece. O objetivo de todo mercador é zerar as prateleiras todo dia, por isso, o ideal é que coloque os produtos mais desejados pelo povo gastador e fique atento às suas reações ao analisarem cada um, pois esse será o indicador de preços entre muito barato, caro ou adequado.

Moonlighter foi desenvolvido por 10 profissionais altamente dedicados, que nos trouxeram um universo já conhecido, mas por uma ótica totalmente nova.

O ideal é chegar na reação de “entediado”, que é o limite entre muito caro e “preciso disso apesar do preço”, e receber a conquista “Comerciante sovina”. Caso não esteja vendendo bem ou o estoque esteja baixo, você pode alterar na hora das vendas os produtos, até ir ao estoque buscar mais produtos, mas é melhor ficar esperto, pois um ladrão também pode aparecer.

Manter a loja sempre abastecida e saber gerenciar os limites de carga do personagem tanto nas masmorras quanto na loja é a chave do sucesso para faturar muito em cada dia de venda e poder expandir mais sua loja com enfeites, patrocinar outras e comprar itens e equipamentos melhores para desbravar plenamente as cinco dungeons. Nenhuma delas terá dó do pobre Will e, da mesma forma, você não precisa ter pena dos seus clientes. É um mundo cruel dentro e fora dos labirintos…

A agonia das decisões

Posto que o jogo é um Zelda com empreendedorismo, a tomada de decisões é crucial para manter a loja e a cidade crescendo, além de se manter vivo. A primeira escolha tem a ver com saber o que manter e descartar em sua mochila, visto que ela se limita a 20 espaços de itens diferentes, sendo que às vezes é preciso jogar fora um bom item de venda em troca de um melhor, dependendo da variação do valor de mercado.

Além do baixo limite de estoque nas aventuras, temos os itens amaldiçoados que encontramos em baús e possuem regras específicas de alocamento na mochila do Will. Perambulando entre grandes ameaças, é preciso saber quando voltar para a vila mesmo sem ter matado o chefe da masmorra, seja por baixa energia ou excesso de carga. Mesmo que haja uma fonte que recupera a energia por aí, será que a próxima sala tem inimigos complicados? Vale a pena arriscar? Se o jogador for nocauteado, perde todos os itens que estavam na mochila e é vomitado pra fora da dungeon, recomeçando tudo de novo.

Outro campo de decisões se aplica à cidade, onde você pode expandir seus negócios, bastando ter grana e noção das consequências do progresso. Usando a vida real como parâmetro, muitas empresas quebram quando crescem, pois o empreendedor não estava apto a arcar com as novas responsabilidades do sucesso para o manter. Usando o popular ditado “dar um passo maior que a perna” como melhor explicação, lembre-se que expandir a loja obriga a gastar mais na reforma e enfeites, abastecer com mais produtos e melhorar os móveis. Tudo isso pode atrair ladrões e, às vezes, exigir uma ajudante, que cobra 30% do faturamento. Como eu odeio essa menina!

Perceba que o ciclo do comércio se fecha nesses pontos: fortificar-se para conseguir produtos custa dinheiro, que demanda mais equipamentos de combate, que também são obtidos com grana para contratar o ferreiro e a bruxa das poções. Não conseguir atender as demandas de encomendas dá prejuízo, enquanto tentar dormir para esquecer os problemas faz perder vendas… Capitalismo selvagem!

A grandiosidade de um nobre pequeno

Moonlighter é um jogo independente desenvolvido em três anos por 10 profissionais altamente dedicados, que nos trouxeram um universo já conhecido, mas por uma ótica totalmente nova. O mercador de vila é presença obrigatória no RPGs mais clássicos e aparece com toda uma construção nova para o clima do jogo, que apesar de não ser original, é ricamente criado com muito conceito de desenvolvimento de games e a filosofia da saga do herói, não a grega mas a japonesa, onde o personagem se mete em enrascadas enquanto vai melhorando de vida com seu esforço diário e repetitivo, sempre na ganância de novos desafios e conquistas, que podem causar grandes males a si mesmo e aos outros.

Outro fator interessante é a criação de Will, com sua aparência genérica, sem detalhes e cabelos brancos, como um NPC genérico de RPG Maker, com sua espada, faixa na cabeça e determinação inabaladas, enquanto os clientes são ricamente detalhados. São eles que estão em uma aventura, os heróis de muitas sagas incontáveis, que dependem de um mercador para avançarem, enquanto o papel do comerciante é ficar preso em um lugar só providenciando todo o suporte necessário para esses desbravadores, enquanto leva uma vida tediosa.

É para quebrar esse ciclo que Will, trocadilho com “willpower”, a força de vontade, vai romper com as castas desse mundo e arriscar seu tédio seguro por uma vida de emoções, sendo duramente criticado por todos, a sina dos revolucionários.

Moonlighter tem muita inspiração no mangá “Magi: O Labirinto da Magia” e também nos remete ao clássico The Legend of Zelda: The Minish Cap.

Falando ainda da aparência e profundidade dada pelo jogo, o personagem aparece na forma SD dos mangás, mas Moonlightrer traz uma crueldade incomum para qualquer outro RPG de ação em que sobrevivência e insignificância estão lado a lado à avareza, conquista e esforço. Os valores morais do jogador podem ser questionados, outra tendência nos títulos indies, enquanto se busca o crescimento pessoal.

Muitos jogadores talvez nem percebam que esmagaram mais de 100 insetos e animaizinhos enquanto focavam em derrotar monstros e esquivar de buracos até a conquista de “Matou 100 insetos” aparecer. Eles ficam lá, esmagados, com os restos mortais dos inimigos que derrotou, em troca da matéria prima feita de seus corpos. Não lembro de outro jogo com apelo SD deixar um rastro de matança tão nítido.

Claro que o jogo não é perfeito e tem alguns bugs que podem fazer o jogador arrancar os cabelos, principalmente na loja, sendo preciso dormir para que se consertem, perdendo um dia de venda ou noite de aventuras. Outro fator estranho é a falta de atribuições no mesmo botão quando se joga no teclado, que exige 14 teclas, fora os direcionais, tanto para os combates quanto para o gerenciamento nos menus e lojas. É por isso que, desde o início, Moonlighter já avisa que funciona melhor com um joystick.

Tendo muita inspiração no mangá “Magi: O Labirinto da Magia”, Moonlighter traz de volta a emoção de combater em masmorras em busca de lendários tesouros, mas com o gameplay clássico de The Legend of Zelda: The Minish Cap. Os adicionais agregam muito ao fator replay, que se torna de vital importância pelo fato de o jogo poder ser resumido como uma simples invasão de masmorras diferentes, voltando pra vender itens na loja. A variação dos cenários é importante e cabe ao jogador saber lidar com essa característica.

O título para PC e Mac, além de Switch, PS4 e Xbox One, vai aquecer o inverno e o coração dos que buscavam uma aventura épica em 2D ou um viciante jogo de ação e gerenciamento, com grande potencial para expansões futuras.

O jogo foi testado no PC, em cópia cedida pela 11 Bit Studios.

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