Perception

Perception

por Felipe Demartini

Quando o escuro não é seu maior medo

Sendo a visão um dos sentidos essenciais para o ser humano, a ausência dela, por si só, é motivo de temor. Quando pequenos, temos medo do escuro, e já grandinhos, ele causa desorientação pelo simples fato de não sermos capazes de enxergar o que está em volta. As sombras são um recurso comum em jogos e filmes de terror, mas Perception nos coloca, pela primeira vez, na pele de alguém que convive diariamente com isso.

Para a protagonista, Cassie, o escuro não é uma ameaça nem um horror, mas uma velha conhecida. Cega, ela se orienta por ecolocalização, utilizando o encontro das ondas sonoras batendo em objetos, paredes e seres para mapear o ambiente. Se você pensou na visão do Demolidor, como no filme de 2003, imaginou correto.

Longe da galhofa de Bem Affleck, até porque a ecolocalização é uma realidade, o título da Deep End Games traz uma perspectiva diferente para um estilo que já começa a se tornar um tanto batido. Mesmo com a abordagem diferente, porém, Perception acaba esbarrando em alguns problemas de estrutura que o tornam pior do que parece.

Traçando paralelos

Se a jogabilidade do game lembra o filme do Demolidor, o andamento de sua história nos lembra de um outro título, Gone Home. Assim como no game da Fullbright, estamos caminhando por uma casa vazia, e aparentemente, abandonada. Também somos colocados em uma posição semelhante diante da protagonista, Cassie, que sabe mais do que o jogador mas também tem seus próprios mistérios para desvendar.

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No caso, é uma série de sonhos bizarros que levam a protagonista a explorar o local, descobrindo a história da família que lá a habitava. Tudo isso é contato por meio de documentos espalhados pela casa, objetos encontrados no chão ou fitas cassete com diálogos e gravações diretamente do passado. Aos poucos, o quebra-cabeça vai se montando e o jogador vai descobrindo quem ele controla, porque a protagonista está ali e, principalmente, o que aconteceu no local.

A maior falha de Perception está na ameaça que é colocada diante do jogador, que parece surgir de maneira aleatória e não a partir de uma mecânica com sentido.

Em sua narrativa, Perception acaba caindo em uma confusão esquisita. Durante boa parte das pouco mais de quatro horas de jogo, e mesmo diante de revelações sobre os habitantes da mansão ou o passado da protagonista, fica meio difícil de entender o que está rolando. Estaria Cassie tendo visões? Será que ela não sabe mesmo o que aconteceu ou está apenas se lembrando? É tudo real ou estamos alucinando?

Essa é uma encruzilhada interessante, mas que também serve como uma faca de dois gumes. Ao entregar a trama de forma picada e deixar que o próprio jogador vá tirando suas conclusões, a Deep End Games pode acabar vendo-o seguir por dois caminhos: o interesse de seguir até o fim na esperança de que tudo seja revelado, ou o inverso, com o abandono do título pois nada faz sentido.

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Nada de errado aqui, não fosse a dificuldade em efetivamente engajar o usuário. Cassie fala demais, e muitas vezes, faz comentários desnecessários e que quebram a tensão da história. Perception conta com um modo de protagonista silenciosa, mas que está na outra ponta desse espectro, fazendo com que ela fale de menos, deixando o game silencioso. É um clássico caso de falta de parcimônia, no qual o jogador fica entre 8 e 80, sem que nenhum dos dois opostos seja satisfatório.

O que faltou de equilíbrio narrativo, entretanto, existe em termos de jogabilidade. Perception é um jogo bastante linear, e por mais que o jogador tenha certa liberdade para andar pela mansão, apenas os caminhos pelos quais ele efetivamente pode passar estão abertos. Portas vão se destrancando ou sendo bloqueadas de acordo com o andamento da história e, se quiser, é possível saber para onde ir ao toque de um botão.

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Essa linearidade vem para compensar outra armadilha criada pelo visual do título, da qual os desenvolvedores escaparam bem. Ao apostar na ecolocalização, a Deep End Games teve de abrir mão das texturas pelos cenários. Tudo é preto, com traços azuis e verdes, a não ser nos momentos de tensão, em que a cor muda para o laranja ou vermelho. Sendo assim, os ambientes parecem sempre iguais, por mais que exista diferenciação entre os cômodos da mansão.

Se desejar, então, o jogador pode seguir direto ao ponto, mas poderá perder informações importantes pelo caminho. Por outro lado, não há nada muito escondido e basta olhar os ambientes com calma para encontrar os artigos necessários para levar o enredo adiante e entender todo o escopo da trama.

Se não é o escuro, é algo pior

A maior falha de Perception está na ameaça que é colocada diante do jogador. Eventualmente, ele se encontrará com a Presença, uma criatura que o persegue aleatoriamente pelos cenários de acordo com o nível de ruído que é feito. Sua única maneira de se localizar, então, acaba se tornando também a maneira mais rápida de ter um encontro com a morte.

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Além dos próprios passos e elementos do cenário, como gravadores, vento encanado, pingos de água ou qualquer outra coisa que faça barulho, Cassie também tem sua bengala para se localizar. Bate-la no chão ou contra objetos causa diferentes tipos de ruídos, dos mais suaves até altíssimos, permitindo enxergar o ambiente todo por mais tempo e de forma mais definida. É justamente pelo som da bengala, também, que a Presença se guia para encontrar o protagonista.

Perception traz uma perspectiva diferente para um estilo que já começa a se tornar um tanto batido, mas acaba esbarrando em alguns problemas de estrutura que o tornam pior do que parece.

Até aí tudo bem, não fosse o fato de o jogador nunca saber exatamente o que ativa a aparição da criatura. Durante nosso período de análises, vimos o inimigo surgir com a personagem totalmente silenciosa, andando devagar, ou também enquanto corria pelo ambiente, ao ponto de pensarmos que seus surgimentos, na verdade, são aleatórios, com a atração pelo barulho sendo apenas uma desculpa.

Uma vez que o monstro surge, claro, ficar quietinho é eficaz para despistá-lo, mas somente aí dá para entender exatamente como essa mecânica funciona. No restante do tempo, a aparição da Presença acaba servindo menos como um fator de tensão e mais como um de interrupção na investigação dos mistérios da casa.

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Felizmente, os carregamentos são curtos e a aventura, como dito, não dura por muito mais do que quatro horas em um ritmo de jogo normal. Essa parece ser a duração de escolha para a maioria dos jogos do gênero, suficiente para contar uma história profunda ao mesmo tempo em que não cansa o jogador com a inerente repetição de games onde o protagonista só pode fugir e se esconder.

Perception traz ideias novas a um gênero que já parece dar sinais de saturação, investindo em um estilo bem diferente daquele a que estamos acostumados. Entretanto, suas falhas gritam tanto quanto as qualidades, e a experiência, que na teoria soa como interessantíssima, na prática acaba não se saindo tão bem.

O game foi testado no PlayStation 4, em cópia cedida pela Deep End Games.

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