Travis Strikes Again: No More Heroes

Travis Strikes Again: No More Heroes

por Felipe Demartini

De volta, mas nem tanto

Depois que um assassino chega ao topo do ranking de sua profissão, o que há mais para se fazer? Quando todas as cabeças foram decepadas e loucuras realizadas, que tipo de desafio restaria para um matador que aniquilou toda a concorrência e viveu para contar a história? Muito pouco, pelo jeito, como evidencia o não tão grandioso retorno de Travis Touchdown, protagonista de No More Heroes.

Lançado oito anos após seu último game, Travis Strikes Again é o aguardado retorno do assassino que dá nome ao game. Aposentado e vivendo sua vida em um trailer enquanto joga vídeo game, o protagonista recebe um chamado do passado quando Badman aparece à sua porta, disposto a exercer uma vingança pela morte da filha. A cutscene inicial mostra que alguém ainda quer a cabeça do Sr. Touchdown, mas o game, em si, não carrega esse clima de urgência, conspiração e, principalmente, de retorno.

Ao trazer Touchdown de volta, o tresloucado designer Suda51 decidiu apostar em um spin-off, em vez de um game propriamente dito e sequência da franquia. Para abraçar de vez a ideia de um personagem viciado em games e meio fora de forma, toda a aventura se passa no interior dos títulos do Death Drive MK-II, um console de jogos amaldiçoados que são jogados de forma presencial pelos usuários. Quem morre no mundo virtual jamais retorna para contar a história, enquanto quem zerar todos os seis títulos tem direito a um desejo.

Travis Strikes Again fica abaixo de seus antecessores e também de suas inspirações, obras indies que ousaram inovar, enquanto Suda51, também reconhecido por isso, acaba entregando um resultado morno.

Esse ensejo serve como plano de fundo para a abordagem diferente dada em Travis Strikes Again: No More Heroes, que troca a tradicional jogabilidade em terceira pessoa por uma visão isométrica (na maior parte do tempo). Isso também abre as portas para uma monotonia intensa quando quase todos os desafios são sempre iguais, intercalados por momentos interessantes de desenvolvimento de trama e enigmas dos mais chatos.

Os jogos do Death Drive MK-II são diferentes uns dos outros, mas nem tanto. Na maioria do tempo, estaremos percorrendo cenários apertando o botão sem parar enquanto enfrentamos inimigos digitais desinteressantes, que até têm seus padrões de ataque e resistências diferentes, mas atacam sem nenhum tom de estratégia ou desafio. Lidar com eles, também, não exige muito mais do que atacar sem parar e se afastar para não ser atingido, algo que vale também para chefes de fase, que até variam em estilo de combate, mas são pouco marcantes em meio ao todo repetitivo.

Travis Strikes Again: No More Heroes

Travis Strikes Again se aproveita do que há de mais tradicional e batido no universo do hack ‘n’ slash, usando a conhecida mecânica de dois botões de ataque, um forte e outro fraco, aliado ao pulo e à esquiva. Poderes especiais são utilizados com a combinação das teclas superiores do Switch, enquanto uma simples mecânica de upgrades parece aumentar a velocidade e poder dos personagens, mas pouco mais do que isso.

Sim, no plural, já que pela primeira vez em sua história, No More Heroes se torna um game cooperativo. Aproveitando algumas das capacidades exclusivas do Switch no que toca a jogatina presencial, os jogadores podem controlar Travis e Badman ao mesmo tempo, não apenas trabalhando juntos para vencer as fases mas também competindo pelo tal desejo ao final da maratona de jogatina. Mais uma das tantas referências a um estilo do passado que, infelizmente, acaba não dando em muita coisa.

A monotonia também se mostra presente na jogatina “de dois” quando Badman tem exatamente o mesmo conjunto de movimentos de Travis. Um usa um taco de baseball, enquanto o outro tem sua tradicional espada de luz como arma, mas a jogabilidade com ambos é essencialmente igual. Mais uma de tantas ideias desperdiçadas em um game que poderia ser muito mais, mas se contenta com pouco.

Basicão esquisito

Travis Strikes Again: No More Heroes

É importante reservar um espaço desta análise para falar de Goichi “Suda51” Suda, o criador da franquia No More Heroes e de outros títulos como Killer7 e Lollipop Chainsaw. A maioria dos jogos do designer, que lidera seu próprio estúdio, Grasshopper Manufacture, têm algo em comum: eles reúnem ideias interessantes que estão em voga no mercado com um toque especial de insanidade e falta de sentido, que torna o conjunto fresco e diferente do usual, mesmo que as mecânicas sejam parecidas com tantas outras.

Mas não aqui, infelizmente. E não é por falta de inspiração, afinal de contas, Travis Strikes Again: No More Heroes está recheado do humor peculiar de Suda51 e do show de referências que é parte não apenas de sua obra, mas também do mundo que cria. Touchdown é transportado para os mundos virtuais dos games que joga aos moldes do Exterminador do Futuro e leva na mala camisetas de clássicos indie recentes como Undertale, Minit e até o brasileiro Dandara. Mas de que adianta fazer isso se, na maioria do tempo, nem dá para ver as estampas?

Travis Strikes Again: No More Heroes

As cenas que imitam visual novel, remetendo às origens de Suda51 ainda na época do Super Nintendo, são de uma bizarrice notável, ao ponto de o jogador lamentar não estar vendo uma cena propriamente dita. Insultos, impropérios e falas sem nenhum sentido são lançadas o tempo todo, pois fazem parte deste mundo, enquanto assistimos à busca de Travis pelos jogos que o levarão ao fim de sua jornada.

Mas quando entramos na aventura propriamente dita, tudo parece baunilha e moroso. Existem momentos interessantes, como as corridas de arrancada de Golden Dragon GP ou a batalha de Travis com um de seus heróis virtuais da infância, logo no começo do game. Na maior parte do tempo, porém, e como já dito, estaremos apertando botões de maneira descerebrada e enfrentando inimigos que atacam de forma igualmente descompromissada.

Travis Strikes Again: No More Heroes

É quase como se o título tivesse sido desenvolvido por pessoas diferentes, com Suda51 mostrando suas ideias em determinados segmentos do jogo, enquanto o arroz com feijão de Travis Strikes Again é criado por alguém com pouca coragem para ousar. Há de se entender a vontade de dar um foco um pouco mais casual e amigável ao game, que até não perde muito de sua personalidade, mas acaba soando mais como um apanhado de minigames pouco inspirado do que como um abraço caloroso em um velho amigo, como as cenas iniciais e os trailers faziam parecer.

Erros inexplicáveis para um produtor experiente também são cometidos no game. Assim como os anteriores, o novo No More Heroes é exclusivo do console da Nintendo, o Switch, o que torna quase inexplicável a presença de telas com elementos tão pequenos que chega a ser difícil enxerga-los, tanto na tela grande quanto com o vídeo game no modo portátil. Boa sorte com o já chatíssimo puzzle das ruas, em que seu personagem se torna um conjunto de poucos pixels na tela, enquanto é perseguido por uma cabeçorra de caveira capaz de te matar com um único golpe.

Travis Strikes Again: No More Heroes

Ou, então, ao abordar um console que pode ser levado para qualquer lugar, a ideia da Grasshopper Manufacture seja de apostar em um estilo mais aproximado do mobile, com uma jogatina descompromissada e pouco exigente. Algo que, novamente, não concorda com a monotonia dos combates e falta de inspiração dos puzzles.

Há, sim, diversão em Travis Strikes Again, desde que ele seja encarado mais como uma coletânea de minigames e menos como um título da série No More Heroes. Ele é um ponto fora da curva, tanto para a própria franquia da qual faz parte como em termos de qualidade. Em todos os aspectos, fica abaixo de seus antecessores e também de suas inspirações, obras indies que ousaram inovar, enquanto Suda51, também reconhecido por isso, acaba entregando um resultado morno.

O “novo” No More Heroes, se é que pode ser chamado assim, é um título que, com toda certeza, não seria jogado pelo protagonista Travis Touchdown. E adotando a metalinguagem da franquia, se estas fossem adaptações de uma história real de um assassino, Suda51 é que seria o próximo perseguido pelo matador, em busca de uma aventura diferente. Fica aí, inclusive, uma ideia para um próximo game, bem mais interessante do que este.

Esta análise também foi publicada no Canaltech.

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