Where the Water Tastes Like Wine

Where the Water Tastes Like Wine

por Fernando Scaff Moura

Era uma vez uma boa ideia…

Às vezes, encontramos um jogo com boa proposta, ideia interessante e significados profundos, mas executado de maneira tão estranha que é uma pena ver algo bonito ser desperdiçado assim. Esse é o caso de Where The Water Tastes Like Wine, game em que a grande decepção está em todos os aspectos que não sejam a ideia inicial.

Tudo começa com o jogador com uma mão vencedora em uma partida de poker, com grande valor apostado. Nada pode te impedir você de vencer essa, no entanto, seu oponente é um homem-lobo, que quer fazer um acordo com você. Após, só resta vagar como um esqueleto, de maneira lenta e cansativa, pelas tediosas terras dos Estados Unidos, buscando e compartilhando histórias.

Após a boa reviravolta da partida de poker, o jogo simplesmente deixa de ser legal para se tornar estranho. O personagem é tão lento, mas tão lento, que supus se tratar de uma mecânica, que usaria esse tédio para alguma coisa. Lego engano – depois de me arrastar por campos vazios em um jogo com arte feia e pouco informativa, surge uma dica na tela dizendo que o assovio me fará andar mais rápido. Mas isso é feito por meio de um minigame, em que existem quatro opções de sons diferentes.

A grande decepção de Where The Water Tastes Like Wine está em todos os aspectos que não sejam a interessante ideia inicial.

Nenhuma delas parecia fazer o protagonista andar mais rápido. Supus que estava fazendo algo errado. Fiquei realmente engajado em tentar fazer aquele esqueleto feio com a trouxinha nos ombros apressar o passo… mas não consegui. Mais uma boa ideia jogada fora.

Com o tempo, o jogador encontra pessoas e lugares com histórias, cuja sorte é indicada em um baralho de tarô. A forma como interage com cada uma muda esse aspecto, o que faz pensar que seria legal ter o máximo de cartas diferentes. Alguns contos são bons, outros não têm apelo emocional algum, sendo apenas anedotas sem muito nexo. Não é possível consultar as já coletadas, e sempre que uma diferente aparecia, tentava manipular o enredo para a direção de um símbolo específico. Com o tempo, parei de me envolver com tudo aquilo e simplesmente escolhia uma das opções de acordo.

E então, como uma reviravolta do destino, e sem motivo aparente, meu esqueleto lento ficou cansado. Como um deus que surge para salvar a gente de uma hora para outra, existe um acampamento para descansar. Algo novo, por que não ver o que rola nessa fogueira acessa de maneira feia e estranha em meio a esse cenário desagradável? Ali, havia alguém querendo ouvir as histórias que eu havia coletado!

Algo está fazendo sentido, afinal de contas. Porém, que pessoa chata, exigente e grosseira essa que queria minhas histórias. Sou um esqueleto feio e lento, que tem uma trouxinha com sabe-se lá o que dentro, e devo receber ordens de alguém que compartilha a fogueira? Não somos todos vagabundos perdidos nessa terra injusta e repleta de tramas confusas chamada Estados Unidos?

Where the Water Tastes Like Wine

Pois bem, relevando a grosseria, vamos cumprir nossa promessa para o homem com cabeça de lobo que trapaceou no poker. Vamos contar nossas histórias. Spoiler à frente, isso também não é algo legal. A exigência de anedotas que o desabrigado mimado quer ouvir não tem muita relação com as cartas de tarô. Acho que eu precisaria de um curso específico de interpretação de texto para encaixar o que ele quis dizer e os símbolos dos itens.

Com isso, acabei decepcionando o cara, que pareceu ter ficado irritado. Por fim, dormimos ao céu estrelado, diante de uma fogueira para repetir os passos lentos por sobre o mapa feio dos Estados Unidos e as terras racistas, machistas e homofóbicas do Norte do país.

Where the Water Tastes Like Wine

Para ser justo, nas estradas, é possível pegar carona e avançar rápido pelo mapa, uma mecânica bem legal. Porém, como nada nesse jogo parece ser feito de maneira inteligente, essa viagem também faz com que histórias sejam perdidas pelo caminho. Voltar para coletá-las e, depois, retornar à rota irrita a ponto de você nunca mais usar o recurso novamente.

Após a boa reviravolta inicial, só resta vagar como um esqueleto, de maneira lenta e cansativa, pelas tediosas terras dos Estados Unidos, buscando e compartilhando história.

Antes de escrever sobre Where the Water Tastes Like Wine, passei um tempo refletindo sobre o jogo. Em uma nota pessoa, não gosto de escrever reviews negativas, pois sei como é difícil fazer um jogo e gerenciar todo esse processo de pós-lançamento. Gosto de valorizar jogos legais e as boas ideias, encontrar aquele ponto diferencial que o time de desenvolvimento definiu como sendo o motivo desse título existir.

Em Where the Water Tastes Like Wine, a ideia é absurdamente boa, com potencial de se tornar um dos melhores do ano e um marco em títulos de narrativa. Entretanto, ele foi simplesmente mal-feito.

Uma das coisas que jogos de andar e explorar têm como mecânica natural é o prazer pela jornada. Caminhar pelo mundo faz parte do entendimento, mas o jogador precisa ser recompensado de alguma forma. Muita arte precisa ser preparada e coisas interessantes devem preencher esse vazio, ou então, o ideal é acelerar a velocidade do personagem, criando eventos que tornem o caminho algo diferente.

Citando exemplos como Minecraft, Fable, Assassin’s Creed ou Metal Gear Solid V: The Phantom Pain, sempre nos deslocamos por um mundo aberto que é interessante. Jogando Guild Wars 2, por exemplo, me lembro encontrar uma montanha que, acreditei, conseguiria subir para cortar caminho, não tendo problemas com criaturas devido ao nível em que estava. O que vi foi a vista de um lago com a cidade de destino ao fundo, com um sol poente. Era tão bonito que perdi um tempo arrumando a câmera para pegar o melhor ângulo, esperei passar todo um dia para pegar a melhor luz e tirei uma foto que foi meu papel de parede do computador por alguns anos.

Where the Water Tastes Like Wine

Isso é uma recompensa por fazer o jogador andar muito, não fazer seu personagem ser lento e tedioso em um mundo feio, parecendo um pai embriagado, gritando com os filhos para aproveitarem a viagem sendo que estão presos à horas em um engarrafamento. Where the Water Tastes Like Wine foi criado por um grupo inteiro de pessoas que deixou tudo isso passar. O game é simplesmente chato.

Talvez ele tenha seu valor como exemplo de uma boa ideia sendo estragada. Pode ser que a ideia seja jogar várias vezes, principalmente depois que se aprende um pouco melhor o objetivo e formato. Meu tédio e desilusão, entretanto, não me permitiram fazer isso.

O jogo foi testado em cópia cedida pela Devolver Digital.

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