Devotion

Devotion

por Felipe Demartini

Tudo pela família

Assim como acontece no mundo dos games, mas obviamente, por motivos diferentes, a escola asiática de horror é considerada uma das melhores do mundo. É de lá que vem alguns dos filmes mais aterrorizantes dos últimos tempos, com versões americanas que não chegam nem aos pés em nível de desgraçamento, e uma mistura simplesmente aterradora de cultura, tradição e assombro. Devotion traz essa bagagem para os jogos eletrônicos.

Não é como se a Red Candle Games fosse uma das primeiras expoentes dessa pegada, mas ela, com certeza, é a mais recente e também uma das melhores. Apostando um lições ensinadas por tantos walking simulators e também títulos de grande sucesso, seja no mercado independente ou entre os blockbusters, seu novo título é uma história de família, contada dentro de um lar. E, como todos sabemos, as feridas que mais doem são aquelas que estão próximas de nós.

Devotion é daqueles jogos melhor aproveitados se você não souber exatamente do que ele trata. Basicamente, estamos observando a destruição de uma família a partir de flashbacks e alucinações que contam uma história e nos colocam diretamente no centro da ação. Peças são dadas de forma metafórica, às vezes, e claríssima e visceral em outras, gerando não apenas o horror e os sustos pretendidos pelos desenvolvedores, mas também uma sensação de profundidade que, muitas vezes, falta em games desta categoria.

Devotion faz jus à tradição do cinema asiático, trazendo uma trama envolvente, visceral e, acima de tudo, surpreendente. É uma história de loucura e devoção com os pés no chão, que poderia ser a sua ou do seu vizinho.

Ajuda nisso, por exemplo, o conjunto visual fotorrealista. Assim como seus desenvolvedores, Devotion está situado em Taiwan e coloca o jogador em uma tradicional residência do país. Panfletos, cartazes e decoração passam bem o clima de um complexo de apartamentos sem muito luxo, onde uma família vivia uma vida simples que, por si só, também é uma questão a ser levada em conta na devoção, ou, melhor dizendo, obsessão citada no título.

Texturas impressionantemente belas e efeitos de iluminação bem trabalhados são as portas de um mundo simplesmente aterrorizante, que se torna mais ainda quando percebemos que as fotografias e vídeos, em sua maioria, são de pessoas reais. O game não exacerba no uso de imagens em live action, de forma a cair no inevitável abismo de breguice dos títulos com esse tipo de recurso, e usa esse aspecto com maestria para passar uma sensação impressionante de realismo.

Devotion

Isso aumenta o comprometimento do jogador, afinal de contas, ele está presenciando um enredo de gente “de verdade”. A história também segue com os pés no chão durante boa parte do tempo, apostando aqui e ali em clichês do horror, como os jump scares às vezes esperados, mas nem sempre. Existe, claro, o momento em que tudo fica maluco, mas o principal fator amedrontador aqui é a ideia de que tudo aquilo poderia estar acontecendo logo ao lado, na casa de seu vizinho.

É nessa pegada curta e intimista que o game segue durante quase toda a experiência, usando a tática popularizada por P.T. Quando se olha friamente, Devotion é uma sequência de gatilhos, com uma ação ou resolução de puzzle motivando uma mudança na sala, a aparição de itens ou revelando mais um ponto dessa história. Na curta duração do título, que pode ser finalizado em menos de três horas, é uma dinâmica que funciona sem cansar, com instâncias diferentes de triggers sendo usadas a cada momento, sem envelhecer a fórmula.

Há, claro, uma barriga da metade para o final, além de um encerramento que deixa de lado justamente o caráter mais poderoso de Devotion, seu realismo. Mas, em ambos os momentos, o jogador já está dominado e, mais do que isso, querendo saber o que exatamente aconteceu em uma trama na qual nem todo mundo parece ser certo o tempo inteiro. Não existe muito espaço para inocência aqui, ou estaríamos apenas enxergando uma visão distorcida dos eventos a partir dos olhos enviesados de nosso personagem?

Devotion

A Red Candle Games também parece ter o bom senso de saber quando sai um pouco dos trilhos, compensando logo na sequência. O citado momento enfadonho, por exemplo, é pontuado por alucinações que estão entre as mais aterrorizantes do título, enquanto as cenas hiperbólicas antecedem um desfecho, ao mesmo tempo, inesperado e devastador.

É nesse sentido que aparece, justamente, a principal faceta do horror asiático, que é sua capacidade de surpreender. Seja por usar mitos antigos de uma nova forma, aplicar essas forças ocultas em nosso mundo cotidiano ou simplesmente pela falta de recursos, eles nunca se cansam de chamar a nossa atenção de maneiras inusitadas. E se há uma cria boa de P.T. nesse mundo, Devotion com certeza é uma bela expoente.

Devotion

O título é tão bom que os acontecimentos o envolvendo no mundo real chegam a entristecer. É o segundo grande trabalho da Red Candle Games e, também, uma viagem do céu ao inferno para a produtora, que viu sua obra passar de um dos jogos mais vendidos da Steam para se tornar centro de uma polêmica internacional, que motivou sua retirada da loja online. Ao ofender toda uma nação, mesmo que sem querer, os desenvolvedores cometeram um erro grave, infelizmente, não relacionado ao ponto central de Devotion.

A trajetória meteórica pode ter sido completamente afetada pelos incidentes, assim como a fixação do game em si, que mesmo retornando à venda em algum momento, estará para sempre marcado pela polêmica. Uma verdadeira pena, pois estamos diante de um título, sim, marcante, mas por outro motivo, que pode acabar sendo deixado de lado em meio a questões bem mais realistas e graves.

O jogo foi testado em cópia cedida pela Red Candle Games.

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