logo de início, o fator que mais chama atenção na experiência com République é sua qualidade técnica.

République

por Felipe Demartini

Jogo de verdade, só que mobile

O desenvolvedor indie Ryan Payton tinha uma visão um tanto quando ousada na cabeça. Ele enxergava o potencial dos celulares e tablets como verdadeiras plataformas de games, mas estava cansado de ver os aparelhos transformados em meras bases para joguinhos casuais e coloridinhos. Ele, então, resolveu arregaçar as mangas e partir para o trabalho, contando, claro, com a ajuda da comunidade do Kickstarter.

Foi assim que nasceu République, lançado no final de 2013 para iOS e que ganhou, no final de abril, seu segundo episódio de um total de cinco. Uma aventura distópica, fortemente inspirada na obra 1984, de George Orwell, que envolve o jogador como, arriscamos dizer, poucos jogos mobile jamais fizeram.

Você é você

logo de início, o fator que mais chama atenção na experiência com République é sua qualidade técnica.

A personagem principal de République é Hope, prisioneira de Metamorphosis, uma instalação lotada de guardas e carregada de segurança, onde experimentos que passam longe da ética são realizados com os Pre-Cals, jovens nascidos e criados lá dentro.

O local está situado em um país extremamente ditatorial – a tal república, do título – onde a manipulação de informações e a caça aos dissidentes dão o tom do cotidiano das pessoas. Temos os elementos que sempre vemos em distopias do título: um inimigo invisível que representa o diabo em pessoa, guardar implacáveis e fortemente armados e um líder que parece zelar por todos, mas que na verdade impõe sua autoridade com mão de ferro.

République

O que muda é que, aqui, você pode fazer a diferença e, ao contrário da maioria dos games do gênero, não assumirá o papel do protagonista. Em République, o jogador é ele mesmo, só que no controle de todo o sistema de segurança de Metamorphosis e indicando o caminho para que a protagonista e seu nome conveniente fujam de lá com segurança.

É como se você, efetivamente, estivesse usando o celular ou tablet para fazer o bem, só que no jogo. Todas as interações se dão por meio da tela sensível ao toque e, no melhor estilo popularizado por Watch Dogs, é possível saltar de uma câmera de segurança para outra, checando elementos do cenário e observando o melhor caminho a seguir.

Se quiser, o jogador pode apenas seguir o seu caminho normal, de objetivo em objetivo, até o final do game. Mas fazer isso seria perder grande parte da trama, recheada de maquinações políticas, personagens fortes e referências a grandes games.

Hope é frágil e não tem habilidades de combate, por isso, a furtividade dá a tônica por aqui. Algumas armas estarão disponíveis pelo game, como um taser ou sprays de pimenta, mas os recursos são escassos como nos melhores Survival Horrors. Por isso, manter-se escondido e pensar antes de agir são as melhores maneiras de sobreviver e, também, os grandes responsáveis por constituir o clima de tensão do game. A personagem tem seus motivos para estar presa ali e não será agredida pelos guardas. Ainda assim, não dá para não ficar tenso nos momentos de vigília mais intensa pelos Prizrak.

Apesar de estar em uma posição distanciada e, teoricamente, superior, você é tão ignorante sobre os desígnios da república e o funcionamento daquele sistema como a própria Hope. E aqui, também, está o grande fator de opressão do título, que faz com que você queira acabar com tudo aquilo o mais rápido possível, na mesma maneira em que quer descobrir a verdade.

História dentro da história

République

Mas, logo de início, o fator que mais chama atenção na experiência com République é sua qualidade técnica. O game já começa com um close em Hope, falando diretamente com o jogador, e impressiona pelo visual e dublagem muito bem realizados. A partir daí, o game segue uma curva ascendente que o coloca entre os títulos mais bonitos do mundo mobile.

A equipe de dublagem conta com nomes de peso como David Hayter e Jennifer Hale (Snake e Naomi, de Metal Gear Solid), além de Matthew Mercer, o Leon de Resident Evil 6. Todo esse talento é extremamente necessário, já que République vem carregado de cutscenes, conversas e diários de áudio, que proporcionam algumas horas a mais de experiência, seja por meio de curiosidades ou elementos macro da história.

Se quiser, o jogador pode apenas seguir o seu caminho normal, de objetivo em objetivo, até o final do game. Mas fazer isso seria perder grande parte da trama, recheada de maquinações políticas, personagens fortes e referências a grandes games, como Resident Evil e Demon’s Souls. O próprio título te incentiva a fazer isso, com cada elemento da trama encontrado sendo convertido em pontos que garantem novas habilidades e possibilitam a descoberta de ainda mais aspectos.

Melhor no celular

O primeiro capítulo de République está disponível gratuitamente na Apple App Store e pode ser jogado tanto no iPad quanto no iPhone. Se você tiver ambos, a escolha vai depender do que você preza mais: a jogabilidade ou os visuais.

É como se você, efetivamente, estivesse usando o celular ou tablet para fazer o bem, só que no jogo.

No caso da primeira opção, o melhor é jogar no celular. Na maioria do tempo, você estará observando a ação por meio de câmeras de segurança e deslizará os dados pela tela para move-las para lá e para cá. A diferença no tamanho do display, aqui, implica em mudanças na agilidade de uso do recurso.

No smartphone, as câmera se moverão mais rapidamente e a movimentação pelos cenários será melhor, já que o iPad enfrenta alguns problemas de precisão, que não devem ser um problema, mas com certeza farão com que você seja capturado sem querer algumas vezes. Porém, o dispositivo compensa tais problemas com uma beleza gráfica incomparável, que permite observar detalhes e trejeitos que, muitas vezes, acabam sendo ocultados pela menor resolução do iPhone.

A principal falha de République, porém, é a mesma da maioria dos jogos free-to-play no mercado, e uma que acaba sendo bastante grave para um título com grande imersão e história profunda como este. Muitas vezes, você receberá uma ligação de Cooper ou verá a ação sendo abruptamente cortada na transição de uma sala para outra. Algo está acontecendo, você pensa, mas não poderia estar mais enganada.

Republique

Na verdade, o que ocorre é que está passando o chapéu dos donativos. Caso você esteja jogando apenas o primeiro episódio, gratuito, verá a ação interrompida algumas vezes enquanto a Camouflaj pede que você adquira o Season Pass do game. É uma tática bastante comum e particularmente pobre de incentivar a compra, e que aqui, pode acabar cortando a tensão e fazendo com que o jogador perca completamente o ritmo do game.

Mesmo assim, République é uma experiência que vale a pena ser experimentada. Seja como uma forma de acabar com o seu preconceito com jogos mobile ou, caso já não o tenha, realizar na prática o sonho de levar um jogo “de verdade” para a fila do banco. Payton prometeu e entregou. Este é um futuro que não queremos, mas já que está aí, com certeza ajudaremos a modifica-lo.