Jump Force

Jump Force

por Jessica Pinheiro

50 anos de loadings e desperdícios

Desde seu anúncio, Jump Force trouxe um tanto de controvérsia junto de si; afinal, a proposta era para lá de ousada: personagens de animes e mangás icônicos trazidos para a realidade (o nosso mundo) e com gráficos mais realistas, por assim dizer – ainda que mantivessem seu estilo de traço e design originais.

A tentativa de mesclar o melhor de dois mundos em um game de pancadaria pareceu não agradar muito, mas ainda assim, o título merecia o benefício da dúvida como qualquer outro jogo, fosse este do gênero de luta ou não. Contudo, Jump Force finalmente está entre nós e… O resultado não foi dos melhores.

O jogo possui mecânicas satisfatórias (ainda que fáceis demais de dominar e sem grandes inovações); um rol de bonecos que é até OK, mas que tinha potencial para ser muito melhor; gráficos que tentam impressionar com texturas e efeitos, mas que peca nas animações; e uma trilha sonora e narrativa pouco convincentes. Mas vamos por partes!

Bonecos

O elenco de personagens é até competente. A ideia, afinal, é celebrar os 50 anos da revista semanal japonesa Shonen Jump, responsável pela publicação de uma grande quantidade de mangás que conhecemos e amamos hoje. Portanto, temos 40 personagens trazidos diretamente das páginas de histórias excepcionalmente icônicas.

Existem mais dois bonecos novos criados para a trama de Jump Force e o jogador pode ainda criar um personagem totalmente novo para representa-lo na história. Além destes, existem planos de adicionar pelo menos nove outros rostos ao elenco jogável e, claro, há os NPCs complementando a jornada.

E, embora num geral seja legal ver tantos rostos queridos de mangás e animes reunidos em um só lugar, há um claro desequilíbrio na quantidade de representantes de cada obra selecionada para o game. Existem mais bonecos de “Dragon Ball” do que de “Cavaleiros do Zodíaco”, por exemplo; e isso causa uma infeliz sensação de que o elenco poderia ter sido muito melhor aproveitado.

Gameplay

O gameplay é competente: não é complexo, oferecendo comandos fáceis e simples; com combos executados através de um ou dois comandos apenas; ao invés de combinar direções e diferentes botões. Nesse aspecto, Jump Force é extremamente fácil de ser dominado, o que pode atrair jogadores inexperientes em títulos de lutinha.

Por outro lado, a ausência de combinações mais elaboradas pode afastar quem busca um desafio real na jogabilidade. Além disso, não existe nada muito inovador: de maneira bem resumida, as mecânicas se concentram em ataques fortes e pesados (que se transformam em combos quando o jogador aperta os mesmos botões repetidamente) e combinações entre os gatilhos superiores para execução de técnicas especiais.

O jogo, inclusive, não possui menus como qualquer outro título normal do gênero: ao invés disso cada slot de save é um personagem original criado. Quando iniciado, o jogador é levado para uma espécie de hub onde conversa com NPCs e pode selecionar missões (as principais, de tutorial ou de treinamento); ou lutar online ou offline.

Nesse sentido, Jump Force é bastante parecido com Dragon Ball Xenoverse, só que menos divertido. O lado bom, pelo menos, é que o game está completamente em português, ainda que conte com dublagem original japonesa. Mas os poucos aspectos bons, infelizmente, se encerram por aqui.

Gráficos

Jump Force tenta mesclar gráficos realistas (afinal, é o nosso mundo na jogada), mas ainda mantém o traço original dos mangás, evocando um design único para cada um dos bonecos. Na teoria parece lindo, mas na prática é desastroso. O jogo se perde um pouco nessa combinação e não sabe medir bem a mão onde deveria pesar mais a atenção aos detalhes ou não.

Por exemplo: as roupas dos personagens estão bem fiéis, sendo possível até mesmo enxergar a textura dos tecidos; e os cenários estão bonitos e bem reproduzidos. Porém, os bonecos movimentam a boca apenas em animações específicas – e quando o fazem, parece forçado e dessincronizado. Um dos “meios de transporte”, que é um sapo gigante, não foi devidamente animado também.

Nem tudo é desastre, porém, já que alguns dos bonecos parecem perfeitamente modelados em Jump Force, como se tivessem nascido unicamente para este game – é o caso de Seiya e Shiryu de “Cavaleiros do Zodíaco” e Dai (ou Fly) de “Dragon Quest”. Jotaro Kujo e Dio Brando também parecem decentes e Yusuke Urameshi de “Yu Yu Hakusho” ficou satisfatório, mas… É só isso.

Até mesmo o personagem original criado pelo jogador parece ter recebido um pouco mais de cuidado em termos de estética (com inúmeros itens para personalizar sua aparência, inclusive), apesar de sua movimentação ser, no mínimo, estranha – e nada realista. Isso é bastante triste, ainda mais considerando que estamos nos aproximando do fim de mais uma geração de consoles e, nesse ponto, os games tendem a ficar ainda mais bonitos, elevando as capacidades dos videogames ao seu limite para entregar uma experiência visual de ponta.

História

Os mangás do gênero shounen, geralmente, são voltados para o público jovem. Uma das características que muitas das mais icônicas obras desse segmento têm em comum é a luta, ou a grande e interminável jornada para ficar cada vez mais forte. Por isso, é comum (mas não uma regra) que os protagonistas sejam lutadores e, muitas vezes, apreciam uma boa pancadaria.

Considerando isso, bastava reunir os personagens mais icônicos da Shonen Jump e coloca-los em um ringue, para que resolvessem suas diferenças. Contudo, Jump Force tenta forçar uma trama arrastada e prevísivel goela abaixo dos jogadores que só torna a experiência geral pior.

A premissa é básica: uma força está convertendo os guerreiros dos Mundos Jump (que agora co-existem junto ao mundo real) em Venom.

O personagem original (ou avatar) criado pelo jogador também quase é possuído por essa força maligna, mas seu coração puro o desperta para a verdadeira luta e o boneco então ganha habilidade especiais. Após ser recrutado pela Jump Force o jogador irá, portanto, descobrir quem está por trás desses ataques e está dizimando as realidades, além de salvar outros lutadores que também estão sendo forçados a lutar contra suas vontades.

>A história vai se desenvolvendo conforme o jogador faz as missões principais com seu time e vai desbloqueando novos personagens. Porém, nada verdadeiramente empolga nessa aventura e, para ajudar, a trilha sonora é bastante genérica e repetitiva. Se ao menos os temas clássicos dos animes derivados dos mangás selecionados tivessem sido incluídos (ou excertos dos mesmos em meios aos rearranjos), talvez a animação aumentasse.

Seria épico (e nostálgico), por exemplo, ouvir uma parte da abertura de “Yu Yu Hakusho” enquanto se enfrenta Yusuke e Toguro. Claro, existem inúmeras questões contratuais envolvidas, sabemos disso, mas se a ideia é celebrar 50 anos, um esforço a mais seria mais do que bem-vindo.

Veredicto

Eu sequer entrei, por sinal, no mérito dos loadings que são, na falta de uma palavra melhor, insuportáveis. É um loading de no mínimo 10 segundos a cada minuto de jogatina, sem exageros. Eles são constantes e demorados, tornando a experiência extremamente irritante e desgastante.

Juntando todos esses fatores, o resultado da equação não poderia ser outra senão negativo. Infelizmente, Jump Force talvez só valha a pena para tirar uns contra com amigos em uma reunião em casa, o que certamente vai trazer à tona diversas lembranças compartilhadas da infância. Mas até mesmo essa nostalgia pode ser um pouco amarga dependendo do quão crítico e apegado você for a detalhes mais técnicos enquanto joga.

Em níveis técnicos, afinal, Jump Force deixa muito a desejar. Na teoria, entretanto, o game é uma linda experiência que reúne diversos personagens queridos de mangás que fizeram a infância de muitas pessoas e que tenta reproduzi-los em gráficos mais realistas. Se isso é suficiente para satisfazer você – e o seu bolso – a decisão é sua.

O jogo foi testado no PS4, em cópia cedida pela Bandai Namco.

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