Retornando às atividades da coluna após um mês de junho intenso, trazemos um jogo de luta brasileiro com temática de duelos do Japão feudal e sistema bem realista, no qual um único ataque mata o oponente. Estamos falando de One Strike, o projeto que nasceu de uma ideia para a Game Boy Jam de 2016 e ganhou proporções além das esperadas, de um projeto de dez dias de desenvolvimento até chegar ao Nintendo Switch.

One Strike é um jogo bem simples de assimilar, com ataque e defesa, movimentação sem pulo e nenhum obstáculo nos cenários. Até aí, tudo bem, até que o sistema se mostra imperativo logo na primeira batalha, quando você morre em um segundo sem ter entendido o que aconteceu.

Inspirado no filme “Os Sete Samurais”, de Akira Kurosawa, e com referências a jogos como Samurai Spirits e Last Blade, podemos definir o título como um Bushido Blade em que não podemos errar o alvo, trazendo muita tensão em cada combate. São seis personagens selecionáveis ao todo e cada um possui seu estilo de combate de acordo com a arma e estilo de Budo, o caminho filosófico da guerra segundo os japoneses.

Encontramos figuras conhecidas, como o samurai certinho com sua Katana e movimentação mediana; o andarilho com sua espada grande e movimentação limitada; a mulher muito rápida com sua pequena Katana e muito veloz, podendo dar duas espadadas rápidas; o usuário de Kusarigama baseado no Shishido Baiken do mangá “Vagabond”, único personagem que não possui defesa, mas sim, rolagem e ataque longo com o peso e curto com a foice; o velho lutador de Kung Fu com sua lança e saltos acrobáticos; e por último, a Kunoichi com muita velocidade e pouco alcance, usando um par de Sai, que ficou famoso nas mãos da Tartaruga Ninja Rafael.

Como já falamos da arte da guerra, precisamos comentar a chave da vitória em One Strike: controlar o Maai. Essa é a distância de ataque que seus golpes podem alcançar em qualquer situação possível, algo complicado dentro da simplicidade do jogo, pois essa variação depende do máximo que se pode ter da tua arma quando se está parado, se movimentando e preparando o ataque.

Um exemplo clássico é o personagem Kenji que precisa preparar o ataque de cima para baixo (Suburi) e tem um alcance mediano, mas ótima velocidade, enquanto Hangaku precisa rodopiar o peso de sua Kusarigama se quiser arremessar, mas pode usar como finta para utilizar sua foice de perto caso o inimigo tente se aproximar antes do disparo, que tem o maior alcance do jogo. É um jogo de adivinhação que exige técnica.

Falando em gráficos, temos a Pixel Art clássica do Game Boy, mas com muito mais cores, visto que a versão de One Strike que avaliamos é a mais atualizada. Teremos cenários que remontam aos clássicos jogos de espada já mencionados, para compor o ambiente perfeito para se duelar até a morte.

A trilha sonora é bem agitada e os efeitos sonoros são satisfatórios. Como se trata de um jogo de concentração e tensão, existem poucas animações no fundo do cenário, para não desviar o foco do combate, que pode ser decidido em um instante ou menos. Da mesma forma, os personagens possuem um contorno branco para que não se mesclem no fundo.

One Strike tem vários modos de jogo como Arcade, Versus, Team e Championship. O mais tenso é The Only Life, onde cada luta no modo Arcade é como no mundo real e levar um simples ataque significa Game Over. Apesar de existir diversão nos outros modos, este é o único que vai dar a profunda experiência de tensão em um combate no qual qualquer vacilo é o fim.

Para falar mais sobre o processo que One Strike passou até chegar ao Switch, convidamos o Danilo Moreira, desenvolvedor da Retro Reactor, que comenta a saga que o levou a fechar parceria com uma “gigante dos games” na Polônia:

NGP: Gostaria de, primeiramente agradecer por doar um pouco do teu tempo para esta entrevista, e dizer que senti falta de One Strike no BIG Festival 2018.

Danilo Moreira: Eu que agradeço a oportunidade, fico muito feliz de falar um pouco sobre o que tem acontecido comigo e One Strike. Sobre o BIG, infelizmente, não tive os recursos necessários para a viagem e estande no evento.

NGP: One Strike é o clássico exemplo de Indie brasileiro que fez sucesso no exterior primeiro, antes de ser conhecido no Brasil. A que você atribui isso?

DM: Ninguém conhece o jogo no Brasil, ainda. Ele foi lançado na Steam e conseguir visibilidade entre milhares de títulos é difícil. Apesar disso, One Strike chamou atenção do Rock, Paper, Shotgun, um site bastante influente nos EUA que o considerou como uma pérola escondida.

Realmente não sei explicar muito bem o porquê, mas acho que o motivo principal é o preço. Decidi o fixar em US$ 5 desde o início, depois de uma pesquisa de mercado, me baseando no que havia parecido com One Strike. Já no Brasil, o título acabou sendo vendido por R$ 10,89, valor considerado alto por muitos jogadores brasileiros com quem tive contato. Porém, lá fora, a mesma quantia é considerada acessível e muitos dos que compraram e escreveram sobre a citaram como um dos pontos positivos, quando comparado com a quantidade de diversão contida no título.

Outra coisa que eu acredito influenciar é que, na minha visão, o jogador brasileiro está acostumado a pagar muito pouco por jogos grandes como os da série Assassin’s Creed. Por exemplo, Black Flag já chegou a custar a mesma coisa que One Strike. Talvez isso o leve a fazer comparações irreais entre games desse nível e os independentes.

Dark Souls

Para dar uma ideia de como as coisas funcionam de forma variada em lugares diferentes, vou contar uma história: recentemente, o jogo foi lançado para Nintendo Switch pela distribuidora Qubic Games. Esse novo alcance fez muita gente falar sobre o título: russos, alemães, americanos, ingleses, etc. Já aqui no Brasil, apenas o New Game Plus teve interesse em comentar.

Sites como NintendoLife, GamingTrend e Nintendo Enthusiasts deram notas bastante positivas para One Strike, enquanto o único YouTuber brasileiro que falou sobre ele gerou apenas comentários negativos entre seus seguidores. Por outro lado, o canal Game Grumps, do famoso Egoraptor (com quatro milhões de inscritos), fez um gameplay extremamente divertido, atingindo 300 mil visualizações em dois dias e mais de mil comentários, em sua maioria, reações positivas que geraram até um aumento nas vendas, tanto na versão de PC quanto no Switch.

Então, é realmente difícil compreender o desinteresse brasileiro. O que dá para perceber é que todo desenvolvedor independente tem que se considerar um empreendedor, que tem contas para pagar e precisa vender seu produto. O importante é tentar procurar quem se interessa por ele e quem está disposto a pagar o preço justo por seu trabalho duro e dedicação. Enquanto tento entender porque o jogo não faz sucesso no Brasil, também me esforço para descobrir porque ele fez tanto sucesso nos Estados Unidos, por exemplo, e assim, poder vender mais cópias nesses lugares.

NGP: Conhecendo essa reação do público brasileiro a produtos nacionais, o que mais te estimulou não só a começar o projeto, mas o finalizar, visto que muitos desenvolvedores nacionais desistem no processo?

DM: O que me levou a começar e terminar foi minha paixão pelo desenvolvimento de games. Essa paixão foi alimentada em muitos momentos por amigos e outros desenvolvedores em redes sociais, mas também por todos os elogios que as pessoas que puderam jogá-lo fizeram nos oito meses de produção. Acho que todo desenvolvedor deve sempre mostrar seu produto o quanto antes for possível, coletando o máximo de críticas positivas e negativas. Fazer isso cedo mostra se seu jogo agrada as pessoas e no que ele pode melhorar, com tempo hábil de fazer mudanças grandes.

Durante esse tempo, o mercado brasileiro pareceu bastante desinteressado no desenvolvimento deste projeto, então, a maioria das opiniões eram de estrangeiros.

Dark Souls

NGP: As referências a filmes e games do Japão Feudal estão poeticamente retratadas em One Strike, desde cenários até a música. Alguém chegou a questionar porquê você não usa a cultura nacional para criar jogos?

DM: Acho fantástico que existam jogos brasileiros independentes como Aritana, Dandara e Trajes Fatais, que buscam inspirações na cultura nacional. Eu, particularmente, gostaria de ver mais isso, porém, nem sempre as inspirações para seus jogos vêm de fontes próximas.

Somos constantemente bombardeados por culturas do mundo todo e não fujo desse cenário. A ideia para One Strike veio de um filme que adoro, “Os Sete Samurais”, do famoso diretor Akira Kurosawa. Fascinado por cultura oriental, samurais, Japão e China feudais, achei que um jogo nesse tema traria o interesse de um número grande de jogadores, e consequentemente, compradores, já que era algo que também me despertava interesse e paixão. Então me desafiei a tentar criar a tensão de um duelo entre lutadores habilidosos, onde apenas o vencedor sairia vivo.

NGP: Qual seu recado para essa galera que está revolucionando a indústria dos games nacionais por meio de games independentes?

DM: Façam jogos sobre temas que te despertem paixão, lembre-se que você vai viver o desenvolvimento dele por um tempo, então se manter apaixonado é essencial. Entendam os seus limites: se você está começando, procure estabelecer um escopo inicial pequeno. Mostrem seus jogos para todos desde o início, sejam humildes para receber críticas e agradeçam os elogios. Trabalhem sempre que possível, trinta minutos, uma hora por dia, quatro, 10. Estudem game design para entender como trazer o melhor do seu game para o jogador.

One Strike está disponível para PC, Mac e Switch, cuja cópia nos foi cedida pela Qubic Games.

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