Zelda Links Awakening

The Legend of Zelda: Link's Awakening

por Felipe Demartini

Agora e mais do que nunca

O Game Boy é um aparelho de sucesso indiscutível, lançado em 1989 para revolucionar a forma como as pessoas jogavam video game. Os títulos deixaram a prisão de fios e televisores para chegarem à palma das mãos dos jogadores, em uma segunda revolução em uma mesma década para a Nintendo. Não é à toa que o portátil, em todas as suas formas, chegou a quase 120 milhões de unidades vendidas em todo o mundo, fazendo com que muitas empresas, também, crescessem o olho com esse sucesso.

A “Big N”, entretanto, sempre pensou diferente. Enquanto as produtoras tentavam adaptar suas experiências de arcades e consoles de mesa para a telinha, nem sempre com bons resultados, a Nintendo sabia que não podia colocar um elefante dentro de um fusca, mas também que precisava levar suas séries e personagens para o Game Boy. Assim, nasceriam muitos títulos consagrados, com The Legend of Zelda: Link’s Awakening sendo, talvez, o maior deles.

É esse apogeu que retorna agora com toda a pompa e circunstância ao Switch, em um remake dos mais bem feitos da história dos jogos. Sem perder a principal marca do game original, a simplicidade, a Nintendo demonstra saber o que fez com que ele desse tão certo. Assim, em vez de modernizar as coisas apenas porque isso seria necessário (não é), ela preferiu seguir pelo caminho das melhorias e das adições. Essa foi a melhor escolha possível.

Para horas ou minutos

A trama é direta e reta, levando poucos minutos para já jogar o usuário em um mundo aberto de uma época em que esse nem mesmo era um conceito. Link naufraga na ilha de Koholit e perde todos os seus equipamentos. Agora, ele precisa encontrar oito instrumentos musicais mágicos para conseguir fugir, e fará isso explorando dungeons e o próprio cenário enquanto enfrenta inimigos clássicos e, pasmem, participações especiais da galera de Super Mario Bros., só que reimaginada.

Zelda Links Awakening

A simplicidade do original permanece e permeia todos os aspectos do jogo. Conceitos básicos do RPG não aparecem aqui. Link não possui níveis, um gigantesco arsenal de arma ou muitas magias para serem coletadas, com o game apresentando uma progressão objetiva e direta. Um desafio, puzzle ou dungeon vencida abre as portas de outro, e mais um, e assim por diante, em uma simplicidade antiga que, claramente, instiga até os dias de hoje.

Zelda Links Awakening

Com isso, a Nintendo também faz brilhar o grande aspecto do Switch, que é a integração entre a jogatina portátil ou na TV. The Legend of Zelda: Link’s Awakening mantém seu caráter básico de game criado para ser jogado em pequenas pílulas, mas salvamentos automáticos, melhorias na agilidade dos controles e gráficos simplesmente belos não tornam horas e horas de jogatina em algo enfadonho, muito pelo contrário. A beleza está em cada pedacinho do game, e ele é composto de muitas partes.

Um dos melhores remakes da história, Link’s Awakening também é um testamento da genialidade da Nintendo, que mostra mais uma vez porque é uma das principais empresas do mercado há décadas.

A maior novidade de Link’s Awakening, entretanto, acaba sendo o visual, que acrescenta demais a um título que já era incrível mesmo em sua forma original. Há quase 30 anos, criar salas que coubessem em uma tela era uma necessidade técnica. No remake, a Nintendo transformou essa câmera focada em primor artístico, com as dungeons, cidades e florestas se transformando em um diorama virtual.

O “Link Bebê”, como ficou conhecido nas redes sociais, é o carro chefe de uma arte inspirada, ao mesmo tempo cartunesca e fiel às origens. Com uma trilha sonora reimaginada e um imenso cuidado
com o material base, o novo exclusivo faz jus à tradição de excelência de uma empresa que segue em um momentum incrível em 2019, com exclusivos quase impecáveis.

Querer sempre mais

Zelda Links Awakening

Link’s Awakening faz com que o jogador ande bastante pelos cenários, com uma contagem de frames mais alta e também os comandos aprimorados fazendo com que isso não seja um martírio, bem como os repetitivos momentos de quebra de vasos ou corte de plantas. Cabe, também, ao jogador escolher fazer isso ou não, caso precise de itens ou esteja tranquilo, com o game fazendo questão de indicar quando uma ação do tipo é necessária para seguir adiante.

Nesse sentido, atualizações de qualidade de vida também aparecem, com o escudo e espada de Link estando ativados por padrão e sempre disponíveis, deixando os dois outros slots do personagem para pós mágicos, itens de pulo ou outros artigos. As idas ao inventário diminuíram e isso tornou o título mais rápido, com um balanceamento de dificuldade também acontecendo para contornar a ideia de que os artigos ofensivos estão sempre à mão.

A simplicidade do original permanece e permeia todos os aspectos do jogo, com adições de jogabilidade e belos visuais completando um pacote primoroso.

A Nintendo ainda investe no fator replay ao adicionar um inédito sistema de dungeons, com direito a uma plataforma de criação a la Super Mario Maker. Nos desafios do personagem Dampé, liberados logo nas primeiras horas do título e disponíveis a qualquer momento mesmo após o final dele, o jogador é desafiado a completar fases adicionais e com desafios altos, em troca de itens.

A recompensa pela finalização das masmorras mais difíceis é ainda mais decepcionante que o cocô dourado de Breath of the Wild, mas o modo, ainda assim, pode servir como caminho caso o jogador esteja precisando de suprimentos ou procure uma diversão a mais.

Zelda Links Awakening

Infelizmente, a Nintendo se esqueceu de um elemento essencial em mecânicas desse tipo e, inexplicavelmente, não adicionou conectividade online a The Legend of Zelda: Link’s Awakening, de forma que as criações pudessem ser compartilhadas com o mundo. A única forma de fazer isso é por meio da memória dos Amiibos, mas o uso dos bonecos também é limitado somente aos da própria franquia, o que acaba por cortar um bocado as asas da imaginação.

O novo The Legend of Zelda: Link’s Awakening é um dos melhores remakes já lançados na história e, também, testamento da genialidade de uma Nintendo que mostra porque, entre altos e baixos, permanece até hoje como um dos grandes nomes da indústria. Um bem-vindo retorno de um clássico absoluto e, também, um grande RPG de ação para as novas gerações, com todos unidos pela verdadeira essência do que é um video game. Um épico em formato diminuto, que recebe um mais do que merecido e bem-vindo tratamento de luxo.

O jogo foi testado em cópia cedida pela Nintendo.