Aqui está uma questão que abre a grande maioria dos livros de game design. cheios de tentativas de teorizar algo que parece ser tão dinâmico quanto os próprios jogos. Longe do campo da teoria, essa pergunta, na mão dos “gamers” chatos, é um dos pontos que os tornam tão boçais. Nada pior que alguém tentando dizer o que é e o que não é jogo, ou pior, o que é ou não divertido. Acredite, é possível comparar futebol, Call of Duty, Super Meat Boy e xadrez. Se você acha que Gone Home ou Stanley Parable não são games, tente de novo.

Mas vamos pelo começo. Jogos existem há muito tempo e fazem parte da natureza humana, como diria Huizinga em “Homo Ludens”. Então, se jogar é algo tão antigo, podemos torná-lo exclusivo do mundo virtual? Do mundo esportivo? É algo da vida infantil? O que define um jogo como tal, afinal? Entender isso nos ajudará a responder uma pergunta muito mais complexa para o desenvolvedor: “por que alguém jogaria minha obra?”

Um desenvolvedor que não se preocupe com a teoria está fadado ao campo da prática. Ou seja, seguirá fazendo aquilo que todos fazem e que deu certo antes. Veja a quantidade de clones de Flappy Bird e Candy Crush! Somente com base na teoria é que se consegue romper barreiras e fazer algo inovador.

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Você querendo ou não, esse joguinho mudou o mundo.

Então, se vamos falar sobre desenvolvimento de jogos, devemos entender o que estamos fazendo. E se você pretende ser um desenvolvedor de verdade, se prepare parar ler muito e sempre. E jogar, claro.

Hoje em dia, quando se fala de games, tentando encaixá-los em algum lugar entre entretenimento e arte, sempre se acaba por defini-los como algo em que exista interação. Existe um jogador e, sem ele, não há jogo. Essa definição parece radical, mas quando penso em peças dentro de uma caixa ou um video game desligado, sempre acabo por concordar com a ideia. Porem, creio que é tipo um gato de Schrodinger, manja? Seria algo como filosoficamente dizer: depende.

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É interessante voltar um pouquinho para entender esse depende… Não. Vamos voltar para caralho. É só apertar esse botão magico da imaginação e seguir para antes de haver o conceito de infância e de que crianças devem brincar e aprender, seguir reto pelo trevo da comunicação e deixar a escrita para trás. Pronto, por aqui está bom, voltamos o suficiente – nesta aldeia no meio do deserto africano. Está amanhecendo e a galera toda já acordou.

Nesta noite, haverá uma iniciação e os não-iniciados, provavelmente crianças de 6 a 8 anos, serão levados com os heróis e anciões para um lugar distante. Provavelmente, eles ajudaram e provaram algum valor de formas importantes para a pequena comunidade, e isso garantiu a entrada deles na fase adulta. Durante todo o dia, existirá a antecipação, uma espécie de ansiedade, afinal, depois da noite tudo será diferente. Eles andarão, provavelmente antes do por do sol, seguindo em direção a um lugar-comum aos mais velhos e iniciados, mas nunca antes visto pelos demais. Talvez todos andem em silêncio antecipando o ritual que ocorrerá, ou trocando uns papos de iniciados sobre a vida e o universo. Vai saber. O que importa é que eles chegarão e haverá uma fogueira acesa.

E essa fogueira é muito importante.

Respectivamente: Hyper Light Drifter, Gods Will Be Watching, Shovel Knight e Demon’s Souls

Primeiramente tem o fogo. Algo hipnótico, mágico por si só. Se você nunca viu uma fogueira acesa, faça o favor de respeitar as leis ambientais e de segurança pública e resolver esse seu problema. Churrasqueira e fogão a gás não valem, tem que ser fogueira, com lenha queimando.

A fogueira também serve pra queimar coisas. Pode existir, talvez, algum xamã com um conhecimento específico e que use um combinado de plantas para criar uma atmosfera. Tipo igrejas vitorianas (e algumas modernas), com amplos salões e janelas minúsculas para acumular gás carbônico e as pessoas se sentirem mais cansadas e suscetíveis ao discurso. Provavelmente, neste momento em que estamos, não há a necessidade de vapores mágicos. Somente a chama dançante, as estrelas impressionantes sobre todos. E a luz protetora, que, assim que os não-iniciados chegam, são informados que não podem tocar nela, não ainda. Devem ficar fora da luz, atrás da linha tremulante que uma fogueira faz.

Por quê?
Por causa do Círculo Mágico, ao redor da fogueira. Ele É o jogo, o motivo disso tudo estar acontecendo.

Em um determinando momento, os iniciados começam a dançar e urrar. E os jovens começam a ser chamados um a um. Talvez pelos seus nomes, talvez por um apelido que tenham merecido. Agora, pela primeira vez eles sabem quem eles são e a função deles para a comunidade. E eles devem entrar na dança.

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Jogadores do All Blacks (time de Rúgbi da Nova Zelândia) dançando o Haka apos ganhar o campeonato mundial.

Ninguém ensinou a molecada a dançar, não tem essa frescura de tutorial não. Eles têm que entrar na roda, seguir o ritmo, começar a se mexer e cantar a música que ninguém disse como seria. Sem ser empurrado por aquele que vem atrás, e não empurrar o da frente. Com a entrada dos novos iniciados, a roda aumenta, e o círculo mágico aumenta. E isso é importante.

E assim se inicia o jogo da vida dessa galera.

Um pro-gamer provavelmente pensaria “que paia um jogo todo elaborado assim só para começar a jogar, e depois fica chato para caralho, com trabalho e responsabilidades cotidianas. Eu não jogaria isso ai não, por mais que os gráficos pareçam muito fodas”.

Engano seu. Os já iniciados também querem ir para a roda no fogo. Também querem dançar. Querem se mostrar ainda úteis e fortes. É aqui que a mágica acontece, é aqui que o futuro é decidido. Seria algo comparado a tentar superar um score em jogos online. Ou mesmo como subir de nível. (Imagine um em que você só suba de nível depois de ser aprovado pela comunidade toda!)

Os mais velhos contarão histórias de caçadas, e sentirão que ainda fazem parte do grupo. Falar sobre si e ensinar os outros faz bem para eles mesmos e ajuda a comunidade a evoluir. Tipo os fóruns de ajuda, ou detonados. Isso significa que eles todos, ao redor do fogo, ainda estão no jogo.

Entrar no círculo mágico não é somente interagir com ele. Fazer as quests, caminhar até a fogueira, dançar, voltar para casa, e ao concluir, isso você recebe 1000 XP. Não. Você tem que aceitar o que o circulo propõe. E aceitar é o que faz toda a diferença.

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Katamari Damacy: onde está seu deus agora?

Um jogador de futebol precisa aceitar que se a bola passar por uma das quatro linhas laterais ela está fora, por mais que isso não faça sentido algum com o mundo real. Não só os jogadores devem aceitar todas as regras, mas até o telespectador tem que entendê-las para poder assistir.

E ai está a grande questão sobre o jogo sem jogador ser, ou não, um jogo. Um conjunto de regras que estabeleçam formas de relação e procedimentos, sozinhas em um papel, é um jogo? Ou o fato das pessoas aceitarem essas normas, e que elas podem ou não fazer, define isso? Parece a mesma coisa, mas a sutileza é importante. Aceitar o jogo como ele é significa dançar ao redor do fogo, entrar no circulo magico que ele oferece.

Depois da fogueira, o círculo mágico se tornou bem adaptável, indo para caixas coloridas e, veja só que curioso, nos CDs dos dias de hoje. É forçado comparar as duas coisas, sabemos que eles não são redondos por causa de uma fogueira e sim por uma questão prática (eles precisam rodar, literalmente). Mas é curioso ver essa conexão.

E ai que está o grande pulo do gato do desenvolvedor de jogos (pulo do gato, entendeu? Vivo… morto… enfim). Como fazer o jogador aceitar seu game. Essa é a grande diferença entre fazer alguém simplesmente jogar, e fazer alguém continuar jogando.

Mas como chegar a esse patamar tão incrível? Precisa ser divertido? Ter uma boa história? Algo único? Ser algo novo? São boas questões para se pensar, mas vamos um pouco mais fundo para terminar.

Responda: Todo game que você jogou foi divertido? Teve uma boa trama? Foi único? Foi novo, no sentido de ser diferente de todos os outros? E os jogos que você jogou e gostou, aquele favorito, ele é tudo isso mesmo? Até a próxima! E bora fazer jogo!

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